Julgar ou não Julgar?

Publicado: 07/12/2009 por Dário Estevão em Devocionais
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Olá Personas,

O que se tem ouvido nestes últimos debates é a palavra Julgar. Um tenta falar que o outro está julgando precipitadamente fulano de tal. Neste mesmo sentindo acaba julgando quem está julgando.

Mas afinal: Como cristãos protestantes, podemos ou não julgar?

Abaixo um texto do Lima (contribuidor da igreja Batista) sobre esta polêmica palavra.

JULGAR OU NÃO JULGAR?

“Não julgueis, para que não sejais julgados” (Mt. 7.1).
“Ou não sabeis que os santos hão de julgar o mundo”? Ora, se o mundo deverá ser julgado por vós, sois acaso, indignos de julgar as coisas mínimas? (1Co. 6.2).

Afinal: crente pode ou não pode julgar? Para algumas pessoas, o verdadeiro cristão é alguém que não julga. Ele sabe o que é pecado, consegue reconhecê-lo quando ele acontece, mas ele nunca chamará outra pessoa pecadora. Na verdade, ele sempre se mostrará compreensivo com o pecador, chegando a abrir mão da disciplina eclesiástica, pois “Quem sou eu para julgar o meu irmão?” Outros adotam uma postura mais agressiva: medem a espiritualidade das pessoas por meio de suas obras, não raro chegando ao ponto de criar uma escala espiritual dos crentes, aonde uns são santos e consagrados, e outros mundanos e depravados. Os mais exagerados chegam até mesmo a ponto de declarar que algumas pessoas são salvas, e outras não.
Por trás deste estudo, está uma questão que é mal interpretada e compreendida nos círculos evangélicos. Afinal, o crente pode julgar? Se sim, quando e como deve ser este julgamento?

SIM, O CRENTE PODE JULGAR.

Como protestante reformado, entendo que não existe uma parte da Bíblia mais inspirada do que outra. Não acho que os Evangelhos sejam mais inspirados do que as epístolas, ou que a teologia paulina é superior à teologia de Marcos. Ler a Bíblia com este pressuposto significa entender que um ensino dos Evangelhos é tão autoritativo como um ensino contido em uma epístola. Os que dão preferência a uma porção da Bíblia em detrimento de outra acabam com uma teologia parcial e incompleta, além de quebrarem a unidade e harmonia das Escrituras.
Inicialmente, gostaria de dizer que, em algumas circunstancias, o cristão pode fazer julgamentos. Embora Jesus Cristo tivesse dito que Ele não julgava as pessoas (Jo. 8.15) ou que nós não deveríamos julgar (Mt. 7.1), podemos ver vários momentos em que o Senhor Jesus emitiu juízos:
“Ai de vocês, mestres da Lei e fariseus, hipócritas! Vocês fecham o Reino dos céus diante dos homens! Vocês mesmos não entram, nem deixam entrar aqueles que gostariam de fazê-lo” (Mt. 23.13).

“Guias cegos! Vocês coam um mosquito e engolem um camelo”. (Mt. 2324).
“Uma geração perversa e adultera pede um sinal miraculoso! Mas nenhum sinal lhe será dado, exceto o sinal do profeta Jonas” (Mt. 12.39).
“Bem profetizou Isaias acerca de vocês, hipócritas…” (Mc. 7.6).
“Não dêem o que é sagrado aos cães, nem atirem suas perolas aos porcos; caso contrario, estes as pisarão e, aqueles, voltando-se contra vocês, os despedaçarão” (Mt.7.6).
Estes versículos são apenas uma amostra de vários juízos proferidos por Jesus. Além destes, podemos achar outros, como os ais pronunciados contra Corazim, Betsaida e Cafarnaum (Lc. 10.13-15), a declaração de Cristo a vários judeus que haviam crido nele, dizendo que eles eram filhos do diabo (Jo. 8.44) e várias passagens aonde Cristo diz que quem não crê nele, já está condenado (Jo. 3.17-18,36).
À luz destas passagens, revela-se falso o argumento de que, baseado no ensino dos Evangelhos e no modelo de vida de Jesus, o cristão não pode julgar a ninguém. Cristo julgou a vários grupos de pessoas. Ao contrario de nossa visão suavizada acerca do Senhor, vemos que Ele, em sua ira e verdade, chamou os fariseus de “hipócritas”, disse que não deveríamos jogar perolas a “porcos” ou dar o que é santo aos “cães”, além de considerar a sua geração como sendo “perversa”, “adúltera” e “incrédula”. Em todos estes momentos, Jesus mediu estas pessoas, achou-as em falta e emitiu um comentário ou juízo sobre eles.
No entanto, alguém pode argumentar dizendo que Jesus, devido a sua condição única de Deus-homem, tinha o direito de julgar aos outros. Afinal, de acordo com João 5.22: “Além disso, o Pai a ninguém julga, mas confiou todo julgamento ao Filho”.
Em outras palavras, Jesus pode julgar as pessoas porque Ele é Deus. Ele nunca faria um julgamento incorreto ou impreciso, além de ter todas as qualificações morais necessárias para ser um juiz. Nós não teríamos esta capacidade.
Mas, apesar de nossas limitações e finitude humanas, o ensino dos apóstolos nos diz claramente que devemos emitir juízos em algumas situações:
“Apesar de eu não estar presente fisicamente, estou com vocês em espírito. E já condenei aquele que fez isso, como se estivesse presente… entreguem este homem a satanás, para que o corpo seja destruído, e seu espírito seja salvo no dia do Senhor” (1Co.5.3-5).
“Mas agora estou lhes escrevendo que não devem associar-se com qualquer que, dizendo-se irmão, seja imoral, avarento, idolatra caluniador, alcoólatra ou ladrão. Com tais pessoas nem devem comer” (1Co. 5.11).

“Pois tais homens são falsos apóstolos, obreiros enganosos, fingindo-se apóstolos de Cristo” (2Co. 11.13).

“Mas eles difamam o que desconhecem e são como criaturas irracionais, guiadas pelo instinto, nascidas para serem capturadas e destruídas; serão corrompidos pela sua própria corrupção! Eles receberão retribuição pela injustiça que causaram. Consideram prazer entregar-se à devassidão em plena luz do dia. São nódoas e manchas, regalando-se em seus prazeres, quando participam das festas de vocês” (2Pe. 2.12-13).
“De fato, muitos enganadores tem saído pelo mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em corpo. Tal é o enganador e o anticristo. Tenham cuidado, para que vocês não destruam o fruto do nosso trabalho, antes sejam recompensados plenamente. Todo aquele que não permanece no ensino de Cristo, mas vai além dele, não tem Deus, quem permanece no ensino tem o Pai e tem o Filho. Se alguém chegar a vocês e não trouxer esse ensino, não o recebam em casa nem saúdem. Pois quem o saúda torna-se participante das suas obras malignas” (2Jo. 7-11).

Vemos, portanto que três apóstolos, Paulo, Pedro e João julgaram a pessoas em seu tempo. Na verdade, é impossível cumprir alguns mandamentos sem que se avaliem as pessoas. Paulo disse que não devemos nos associar a que diz que é cristão, mas é imoral, avarento, idólatra, entre outros. Para que eu obedeça a este mandamento, preciso olhar para a vida do cristão e ver se ele incorre em algum destes erros. João diz que devemos nem saudar aqueles que negam a encarnação de Jesus e os hereges que vão além do ensino de Cristo. De igual modo, para que eu obedeça à instrução de João, devo julgar a meus semelhantes cristãos.
O bom senso também nos mostra que fazemos julgamentos o tempo todo. Na hora de escolher um pastor, presbítero ou diácono, nós devemos julgar o caráter do candidato à luz das exigências bíblicas (1Tm3 e Tt. 1) e ver se ele é aprovado para a liderança da igreja. Quando convidamos alguém para pregar, também examinamos a vida e o ensino do pregador, pois caso ele seja um herege, entregar-lhe o púlpito significa causar transtornos à Igreja de Cristo.

COMO JULGAR E COMO NÃO JULGAR
AS PESSOAS

Esclarecido, pois, este primeiro ponto, precisa analisar agora como as pessoas devem ser julgadas.
Olhando para o exemplo de Jesus, vemos que os religiosos que não vivem aquilo que pregam são dignos de julgamento. Os fariseus foram criticados por Jesus por serem hipócritas. Eles, por exemplo, davam o dizimo de temperos, mas negligenciavam a justiça, a misericórdia e a fidelidade (Mt. 23.23). Jesus também condenou os fariseus por sua doutrina distorcida (Mt. 23). Olhando para os evangelhos, também vemos que os fariseus eram pessoas que impediam o acesso de outros pecadores ao caminho da salvação (Mt. 23.13), orgulhosas acerca de sua fé (Lc. 18.9-14) e resistentes ao ensino de Jesus, chegando até mesmo a atribuir as obras de Jesus ao próprio satanás (Lc. 11.14-15).
Jesus também julgou a sua geração por querer tentar a Deus, pedindo um sinal. Na verdade, a multidão não queria acreditar em Jesus, eles não tinham fé. Pela mesma razão, Jesus teve vários embates com a multidão ao longo do Evangelho de João. Jesus apontava o pecado da incredulidade para aqueles que se recusavam a admitir suas falhas. O Senhor também julgou os “cães” que rejeitam o seu Evangelho, chegando a dizer que não deveríamos lhes atirar as nossas perolas (o Evangelho).
Os pecadores resistentes, aqueles que se recusam a admitir o seu pecado (como Ananias e Safira ou os fariseus), os hereges que não aceitam correção (como os falsos apóstolos descritos por Paulo), os que se fazem passar por irmãos, mas não são (os fariseus e os homens com os quais não devemos nos associar), os imorais que não se arrependem de seu erro e continuam a praticá-lo (o caso mostrado em 1Co. 5), todos estes são exemplos de pessoas que são passiveis de julgamento.
Mas não devemos condenar os pecadores que reconhecem seu erro e se arrependem. A adúltera apresentada a Jesus (Jo. 8.1-11), o publicano Zaqueu (Lc. 19.1-9) e a pecadora que ungiu os pés de Jesus (Lc. 7.36-50) são exemplos de pessoas que foram julgadas pelas pessoas que os cercavam, mas que não foram julgadas por Jesus. Tratava-se de pecadores que estavam buscando o arrependimento, corações que tinham sede de Jesus e que não foram resistentes ao Evangelho. O pecador que sabe a gravidade de seu pecado e que está lutando para abandoná-lo e se aproximar de Deus, deve ser acolhido.
Jesus também não julgou os pecadores que ainda não tiveram a oportunidade de aceitá-Lo ou rejeitá-lo. Ele andava com os publicanos e pecadores (Mt. 9.10), provavelmente evangelizando-os. O pecador que não participa da igreja e que não rejeitou definitivamente o Evangelho deve ser evangelizado, e não condenado. Sobre isso, vale a pena ler 1Co. 5.12, que dá a entender que não devemos julgar aqueles que estão fora da igreja:

“Pois, como haveria eu de julgar os de fora da igreja? Não deve vocês julgar os que estão dentro?”
Isso não que dizer que não devemos falar para os incrédulos sobre os seus pecados. Ao contrario, toda evangelização séria mostrará, com clareza, que todos somos pecadores e merecedores de uma condenação eterna. Mas isso não nos dá o direito de condená-los, a nossa primeira preocupação deverá ser a de evangelizá-los, e, caso eles não aceitem o Evangelho, deixá-los e pregar o Evangelho a outros incrédulos (Mt. 10.11-16).
Aquele que julga também deve ser uma pessoa de moral. Caso contrario, ela estará desqualificada para fazer qualquer julgamento:
“Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão, e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: Deixe-me tirar o cisco de seu olho, quando há uma viga no seu? Hipócritas, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão” (Mt.7.3-5).
“Portanto, você, que julga os outros é indesculpável; pois está condenando a si mesmo naquilo em que julga, visto que você, que julga, pratica as mesmas coisas” (Rm. 2.1).
Uma última consideração deve ser feita. Condenar a alguém não significa tripudiar sobre a pessoa, nem caluniá-la ou ficar fofocando sobre o pecado alheio. Mateus 12.20, lemos “não quebrará o caniço rachado e não apagará o pavio fumegante”. Jesus não foi enviado para condenar o mundo, mas sim para salvá-lo (Jo. 3.17), e nem mesmo o arcanjo Miguel fez acusação injuriosa contra satanás (Jd.9). A disciplina eclesiástica ou a condenação de alguém são eventos que devem despertar em nós tristeza e pesar, e não fofocas ou prazer. Se virmos que alguém está se desviado do Evangelho ou pregando heresias, o nosso objetivo principal deve ser conduzir o pecador ao arrependimento e a restauração. Caso a disciplina seja indispensável, ela deve ser feita com seriedade, amor e tristeza, sempre objetivando o arrependimento, e não a condenação eterna do pecador. E com muito temor também, afinal não somos pessoas perfeitas e ninguém deve ser julgado ou condenado injustamente.
Espero que esta reflexão possa nos ajudar a entender melhor a questão da disciplina e possa nos dar uma visão bíblica e equilibrada sobre esta delicada questão que é a de julgar os outros. Infelizmente os nossos julgamentos e disciplinas estão produzindo mais fumaça do que fogo.

Ao Senhor pertence a Salvação. Jonas 2.9
Lima – ORTOPRAXIA-REFORMADA

Agradecemos ao Lima pela valorosa contribuição.

Contribua com seus comentários.

Blessing
Dário

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comentários
  1. Rômulo de Barros disse:

    Vamos parar de ser idealistas iludidos: todos nós julgamos! Um olhar já demonstra julgamento. Como disse o texto, devemos ter cuidado para não caluniar, ofender, injuriar, fofocar, isso é muito importante.

    E, fundamentalmente, colocar como essência o temor vertical (a Deus) e não a preocupação horizontal (homens). O ser humano que se liberta da responsabilidade de ser aprovado no julgamento alheio alcança a plenitude da existência. Tudo isso já disse Huberto Rhoden!

  2. Duarte Henrique disse:

    Meu Caros, como estamos? Crescendo…

    É muito interessante mesmo essa questão. Penso, como o Rômulo já colocou, que é impossível escaparmos de fazer julgamentos, e, também, de sermos julgados. Aliás, a palavra julgamento tem estrita conexão etimológica com a palavra juízo, que por sua vez conecta-se, semânticamente, à palavra siso. Ou seja, diariamente precisamos fazer julgamentos se quisermos continuar vivos! Que comida comer? Que estrada pegar? Em quem confiar? Com quem me casar? Ai daqueles que não fizerem bons julgamentos nessas questões…
    O que penso ser errado, e a maioria deve concordar, é o julgamento precipitado, irrefletido, leviano. Mas esse é mais comum aos néscios, ou aos jactantes, muito embora, vez ou outra, todos estejamos sujeitos a ele.

    Abraços!!!

    • rafinha que não é o do edinho disse:

      Como sempre nosso caro Duarte usando de palavras cujo o significado é uma interrogação (?).

      Após a leitura do Aurélio, seguem os significados:

      1.néscios: sem instrução, sem discernimento;

      2.jactantes: vaidade, ostentação, orgulho etc;

  3. Isabel disse:

    Oi Gente:)
    O assunto é interessante, porém o texto é muito grande. Não o li todo.

  4. Rafael disse:

    Concordo com o Rômulo.
    Todos nós julgamos. Não há ninguém que não julgue.
    Exemplo básicasso: um senhor parado no sinal te pede R$ 1,00 pra passagem ou pra comer. Logo você pensa: ele deve usar esse dinheiro para beber pinga e tals.
    Ou alguém aqui nunca pensou assim?

    • Roberto Cantanhede disse:

      Rafaelvis, é um direito do pedinte usar o dinheiro que você entrega como quiser. Ele poderá até fumar o seu dinheiro. Se não quiser, não dê. Se quiser pagar comida, pague comida. Sempre tem um cara desses almoçamos, a fim de um goró, e as vezes tem uma pessoa que realmente tem fome. Se for para pagar a passagem, converse: “quanto você já tem?”, “quanto é a passagem?”, “e como você chegou aqui?”, “vai precisar voltar?”, “me daria seu telefone?”, “posso ligar?”. Ajuda desinteressada é que dá margem aos cachaceiros e aos viciados de plantão, que acaba por não ajudar em nada. Ajuda de verdade custa caro. Jesus conversou com a mulher do poço, não deu moedinhas para ela… Gastou tempo.

    • antonia disse:

      é rafael isso é verdade eu msma ja ñ ajudo mas ninguem dessa forma por que ja ñ sei quem fala a verdade ou mentira!!! e por muitas vezes pensei dessa forma sim.ou seja [julgando]. boa tarde!!!

  5. Roberto Cantanhede disse:

    Pessoas, nós julgamos por natureza e o tempo todo, discernindo entre o bom e o ruim o tempo todo e entre o bem e mal. Entretanto, não podemos segregar as pessoas; se o fim de todas as coisas é Cristo, certamente não devemos condenar ninguém, antes dar a oportunidade para que o arrependimento se manifeste junto com a graça, lembrando-nos todo o tempo do atire a primeira pedra quem não tem pecado. Eventualmente, é claro, nos encontremos com pessoas como o homem rico, que uma vez confrontado retirou-se sob o peso de sua própria lei, isto é, por valorizar os rituais e sua própria riqueza no lugar de seguir ao Mestre.

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