Porque um Protestante não pode ser Evangélico

Publicado: 07/12/2009 por Dário Estevão em Devocionais
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Olá Personas,

Há algum tempo um colaborador tem nos ajudado bastante aqui no blog com seus textos e comentários: Lima da Igreja Batista. Queremos compartilhar o artigo escrito por este colaborador.

O texto é grande e deve ser lido com calma para que você não interprete de forma precipitada ou equivocada. Se tiver dúvida ou questionamentos a fazer, escreva um comentário que com certeza o Lima irá te responder.

Vamos ao texto:

PORQUE UM PROTESTANTE NÃO PODE SER EVANGÉLICO

A Reforma Protestante redescobriu o Evangelho da graça de Deus, que tinha sido obscurecido na igreja medieval por um moralismo que ignorava a profunda depravação do homem, por um sacerdotalismo que colocava entre os homens e Deus, e por um eclesiasticismo que apagava a distinção Criadora – criatura, tornado-se a própria igreja a nova Encarnação. No cerne da Reforma estava uma ênfase renovada sobre o Evangelho bíblico Paulino – Agostiniano: salvação somente pela graça de Deus, sobre a base da obra expiatória de Cristo, recebida pela fé somente. Os reformadores e suas igrejas tinham orgulho de serem conhecidos como “evangélicos”, visto que viam a si mesmos como pregando o puro Evangelho, a mensagem do Evangelho. Esse é o evangelicalismo bíblico.

Mas o que se passa hoje por evangelicalismo está, em muitos pontos, bem longe do evangelicalismo da Reforma, assim como está em geral longe do ensino bíblico em outros pontos. Quando amigos perguntam se sou evangélico, rapidamente digo “NÃO”. Porque frequentemente eles identificam “evangélico” com “crer na Bíblia” e “pregar o evangelho”, tento explicar que é precisamente devido ao fato do evangelicalismo não crer corretamente na Bíblia ou pregar o Evangelho fielmente, que não me considero um evangélico e não posso ser um membro de uma igreja evangélica (isso é grandemente verdade do fundamentalismo moderno, que é simplesmente uma versão mais restrita e provincial do evangelicalismo). O que talvez seja os seus três principais distintivos permanece em total contraste com a crença e prática bíblica e reformada do Cristianismo.

UM EVANGELHO SUBJETIVO, E NÃO OBJETIVO.

Embora os evangélicos modernos professem uma crença firme na Bíblia, no centro de sua religião não está a sua visão da Bíblia, mas sua visão do evangelho. O evangelicalismo orgulha-se sobre centralidade do evangelho e da salvação. É justamente aqui, contudo, que o evangelicalismo está mais poluído. Na verdade, ironicamente o suficiente, a visão evangélica do evangelho está mais perto da Roma Medieval do que do Evangelho bíblico da Reforma. O Concilio de Trento, a resposta católica romana à Reforma, sustentou que a salvação é um empreendimento cooperativo entre Deus e o homem. Deus coloca o processo em movimento (no batismo), mas o homem ajuda ao longo do processo. De acordo com Roma, o livre-arbítrio do homem desempenha uma grande parte em sua salvação. Os reformadores reconheceram corretamente que isso destruiu o evangelho da graça de Deus. Abriu caminho para o homem afirmar sua própria contribuição, bondade e justiça. Para os evangélicos, isso é quase uniformemente sua própria “decisão”. Neste ponto, eles são um com Roma.

Os evangélicos são defensores da “regeneração por decisão”. O evangelicalismo é essencialmente uma deturpação do novo nascimento, a institucionalização da experiência de conversão. A coisa importante sobre a salvação é a experiência do homem, seus sentimentos sobre ser salvo. Uma dose pesada desse experiencialismo foi traduzida na igreja no wesleyianismo do século dezoito, e tem sido uma marca do evangelicalismo desde então. A experiência de Wesley foi a de ficar “estranhamente aquecido” quando ouviu o evangelho, e essa experiência tornou-se uma peça teatral de sua teologia.

Para os reformados, em contraste, nossa salvação reside na obra objetiva da expiação de Cristo. Os homens não são salvos pelo que experimentam; eles são salvos pelo que Cristo realizou. Em Sua grande obra redentora sobre a cruz e em Sua ressurreição, Cristo assegurou a salvação do seu povo, cumprindo as exigências da Lei ao substituir judicialmente os pecados dos pecadores. Quando o Evangelho é pregado, ele atrai eficaz e irresistivelmente aqueles a quem Deus escolheu. Eles são conquistados por Cristo, o seu Redentor. Eles são trazidos sob seus joelhos em humilde submissão, e não podem fazer nada senão exercer fé na obra redentora de Jesus Cristo. Essa experiência, embora essencial, é um resultado da expiação objetiva de Cristo e da aplicação do evangelho pelo Espírito Santo.

Para os evangélicos isso é muito sofisticado e também “intelectual”. O fato realmente central é que Deus perdoou os seus pecados, aceitou-os em Sua família, tornou-os felizes, e preparou-os um lar no céu. Para evangélicos, o evangelho centra-se na vontade e prazer do homem; para os reformados, o Evangelho centra-se na vontade e prazer de Deus.

Porque ser um evangélico significa abraçar a sua forma de evangelho centrado no homem, não posso ser evangélico e o ministro que pensa dessa maneira tem um ministério de Eli.

UMA RELIGIÃO DO NOVO TESTAMENTO, E NÃO BIBLICA

A ala Reformada da reforma expressava a unidade do pacto de Deus no Antigo e Novo Testamento. Os “evangélicos” enfatizam a falta de unidade entre esses pactos, pois para os evangélicos o objetivo da fé é reproduzir “o Cristianismo do Novo Testamento”. Os evangélicos crêem em ¼ da Bíblia; os cristãos Reformados crêem numa Bíblia inteira. Evangélicos rotineiramente desprezam a autoridade do Antigo Testamento. A lei do Antigo Testamento, eles afirmam, é parte do “velho” pacto, e foi destinado somente para o antigo Israel; hoje ouvimos apenas as palavras de Jesus, João, Paulo e assim por diante. Os evangélicos estão entre os mais ruidosos em insistir sobre “crer na Bíblia de capa a capa”, mas não crêem que ¾ do que aparece entre as capas tenha qualquer relevância para hoje. Eles falam hipocritamente sobre “estrita inerrância bíblica”, mas isso em geral é simplesmente “conversa piedosa”, pois eles negam que as provisões do novo pacto estavam em operação no Antigo Testamento (Gl.4.22-31). Eles não vêem muito do Evangelho, se é que algo, no Antigo Testamento. E porque o evangelicalismo centra-se no evangelho, isso significa que o Antigo Testamento é largamente irrelevante. Funcionalmente, portanto, o termo “crente na Bíblia” não se aplica a maioria dos evangélicos.

UM EVANGELHO LIMITADO, NÃO A FÉ  PLENA.

Isso leva diretamente à característica final do evangelicalismo, a qual os cristãos que crêem na Bíblia devem repudiar expressamente. Para os evangélicos, é o evangel, o evangelho (limitada e erroneamente definido, é claro) que deveria impressionar nossas vidas. Para os Reformadores, é a soberania de Deus e Seu governo régio absoluto na terra que é impressionante. O evangelho evangélico não é meramente deturpado; é limitado. O evangelho evangélico é um fim em si mesmo. “Manter nossas longe do inferno” é todo o significado da vida sobre a terra. Para os Reformadores, o significado da vida sobre a terra é a submissão absoluta a Cristo, o nosso Redentor real, e o trabalho diligente para estender o Seu reinado na terra. Evangelismo é o meio essencial para esse fim, mas não o próprio fim. Afirmar que o evangelicalismo é um fim em si mesmo é expor uma teologia deturpada e centrada no homem. O fim é a gloria de Deus e, com referencia ao Seu plano para a terra, a expansão gradual, porém inexorável do seu reino (Mt. 6.33; 13.31-34).

Os evangélicos estão intensamente interessados no tipo de evangelicalismo deles. Porque essa visão não é apenas deturpada, mas também limitado, ele não se relaciona com muitos aspectos da vida. Porque o evangelicalismo é o centro de sua religião e por não se relacionar com muitos aspectos da vida, eles tendem a pensar como os humanistas mundanos naquelas áreas sem relação com sua religião limitada. Esse é o porquê, em primeiro lugar, o método apologético e evangélico de comprometer o evangelho.

Os evangélicos estão dispostos a comprometer tudo, até Deus mesmo, por causa de seu ídolo precioso, o seu evangelho de baal. Esse é o motivo da maioria deles não ver nada de errado, em musicas de gosto duvidoso, teatros, danças sensuais, piadas em lugar de pregação, psicologia secular, ensinar uma ciência evolucionaria, eleger políticos corruptos, aceitar hereges pregar nos púlpitos, endossar traduções errôneas da Bíblia, cultos centrados ao gosto do freguês, isso prova que todas essas áreas pertencem a um evangelho limitado. Tudo além do escopo de seu evangelho é algo legal para uma perspectiva “neutra” isto é, uma violação do Pacto de Deus.

Por essas razoes e muitas outras, onde quer que o evangelicalismo moderno tenha florescido, ele tem bombardeado a ortodoxia bíblica histórica; eviscerado uma fé forte e teologicamente ancorada; e castrado uma religião robusta, vigorosa e abrangente. Seu sucesso tem sido o fracasso do Cristianismo bíblico. Pense se é isso que Deus exige de você…

Ao Senhor pertence a salvação. Jonas 2.9

Lima – ORTOPRAXIA-REFORMADA

Blessing
Dário

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comentários
  1. Duarte Henrique disse:

    Fala aí rapaziada? Tudo bem? Vocês decidem…

    Grande irmão Lima, boa pedida. Eu nunca entendi bem porque confundem tanto esses dois conceitos em nosso país. No que diz respeito à salvação a diferença é gritante: a maioria dos evangélicos são arminianos (ainda que não o saibam), já os protestantes são, em sua grande maioria, calvinistas. O protestantismo é bem diferente do ramo evangélico. Os evangélicos tem uma teologica muito parecida com a católica: forma de governo episcopal, distinção entre leigos e ministérios, forma administrativa centralizada, maior rigor dogmático etc. Já os protestantes são mais democráticos na forma de administração eclesiástica, bem como em relação a teologia. São menos dogmáticos e tem mais liberdade de expressão. É uma diferença muito importante a ser estabelecida… principalmente em dias como os que vivemos…

    Abraços e parabéns pelo artigo!

    PS: Toda vez que vejo uma menção a Lutero (foto) me inspiro, pois ele foi alguém que teve a coragem de enfrentar a figura mais importante da época, o papa, sem temer pela própria vida, em defesa da verdade.

    • Rômulo de Barros disse:

      Mestre DUARTE,

      Você foi muito bonzinho e omisso aqui! Pelo que li e já ouvi de você, alguns pontos aqui são divergentes… Vamos discutir, hehehhehe!

      Abraço!

  2. Lima,

    Este texto contravém em muito do que eu pensava/acreditava.

    Preciso que você, com paciência, explique a este simples mortal, que deseja aprender mais e mais alguns pontos:

    Se não acreditarmos no livre-arbítrio nós não estaríamos acreditando predestinação?

    A história do Wesley ter ficado “estranhamente aquecido” quando ouviu o evangelho é o berço do retété? ehehe

    Quando você afirma: “Quando o Evangelho é pregado, ele atrai eficaz e irresistivelmente aqueles a quem Deus escolheu.”

    Eu realmente não entendo essa parte de que Deus “escolheu”. Novamente eu só penso na predestinação.

    Na parte: “A lei do Antigo Testamento, eles afirmam, é parte do “velho” pacto, e foi destinado somente para o antigo Israel; hoje ouvimos apenas as palavras de Jesus, João, Paulo e assim por diante.”

    É meio contraditório para os “evangélicos” que utilizam passagens como Malaquias 3:10 sobre os dízimos e ofertas. Se eles afirmam que só interessa as palavras de Jesus, João, Paulo o que eles estão fazendo no velho testamento utilizando essas passagens?

    Sobre a parte: “UMA RELIGIÃO DO NOVO TESTAMENTO, E NÃO BIBLICA ”

    Acho que ficou faltando explicar/exemplificar as operações do Antigo Testamento a que se referencia as provisões do novo pacto:

    “Pois eles negam que as provisões do novo pacto estavam em operação no Antigo Testamento (Gl.4.22-31).”

    Essas são as minhas dúvidas.
    Um dia eu chego lá…
    Abraços

  3. Lima disse:

    Dário, são pentinentes as suas perguntas, mas gostaria de saber primeiro os seus pressupostos de Ef.1.3-14; Rm.9.14-18:Jo.1.11-13; 6.44. Também Ml.3.10. Após estou a sua disposição.

  4. Lima disse:

    Correção:
    Dário irmão dileto, digo pertinentes ok.

  5. Isabel disse:

    Oi Gente:)
    O assunto é interessante, porém o texto é muito grande. Não o li todo.

  6. Liliane Novais disse:

    Muito boa a tese!!!
    O assunto bom para discutir!!
    Eu não faço distinção entre ser ou não ser evangélico.
    Ser ou não ser protestantes.
    Afinal, temos que seguir a Cristo…
    Evangelho de CRUZ e não de facilidades.

    O texto poderia ser mais objetivo e sintético, fica mais fácil a leitura e o entendimento.

    Estarei acompanhando…

    Abs.

    Liliane Novais
    8406-3300

    • Duarte Henrique disse:

      Cunhada,

      De fato, trata-se apenas de classificações. Mas que não tem efeitos meramente acadêmicos. A questão é que hoje ao se declarar evangélico, você está declarando, implicitamente, acreditar numa série de doutrinas que, à meu ver, não são bíblicas. Os evangelhos são bíblicos, já os “evangélicos”… Penso que até hoje, dos diversos grupos cristãos que já surgiram, nenhum, nem mesmo a igreja patrística, se aproximou tanto do que é a verdade bíblica, como o fez o movimento reformado em sua essência.
      De fato, temos que ser bíblicos, e seguir a Cristo, mas isso, necessariamente implica em conhecermos a bíblia… é aí que começam as divergências…

      Abraços!

  7. Thiago Neiva Fonseca disse:

    Porque um Cristão não pode ser Protestante???

  8. Rômulo de Barros disse:

    Grande irmão Lima,

    Muito interessante o tema – exceto pelos milhões de “ismos”, rs. Leio com muita curiosidade, mas pouca propriedade. Sou néscio a esse respeito (e infindáveis outros). Queria tecer alguns pontos:

    1. Acho que os “evangélicos” dão, sim, muito valor ao Antigo Testamento: a teologia da prosperidade é amplamente fundamentada em ilustrações do AT.

    2. Quando dizes: “trabalho diligente para estender o Seu reinado na terra”, pergunto: onde está o Reino de Deus?

    3. No penúltimo parágrafo textual, sobre como os evangélicos estão comprometendo tudo: você faz distinção entre sagrado e profano? Você crê que nós devemos ser sectaristas isolados do mundo?

    Tire minhas dúvidas, por obséquio!

    Abraço!

  9. Lima disse:

    Grande Rômulo,
    1-Quanto aos milhões de “ismos” são necessários.
    2-De fato os evangelicos usam o AT, mas escolhendo versículos isolados sem contexto. ex. Dt.28.13. Por favor leia o capitulo por inteiro, só vai ser cansativo, pois é muito longo, talves por isto os “evangelicos” não tenham o habito (gostem) de ler a Bíblia. É melhor ouvir do que pensar. Visto que os capitulos são muito longos sempre é mais facil escolher um ou dois versículos para fundamentar as suas elocubrações.
    3-O que é ser santo? Quem foi o maior sectarista que passou nesta terra? A Bíblia fala que vivemos no mundo, mas não devemos amar o mundo. Quando se trata de “mundo” precisamos entender qual o mundo Joao estava falando, tem pelo menos cinco explicações para definir o que é mundo, vai depender do contexto. Grande Rômulo Cristo condenada a doutrina dos Nicolaítas de forma terrível.

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