Sobre o dízimo: mais uma opinião.

Publicado: 12/01/2011 por Rômulo de Barros em Devocionais
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Fiéis leitores desse Blog sobrevivente, como estamos em Cristo? Seguindo, espero.

Postarei um artigo com visão peculiar sobre um tema pouco enfrentado nos anais assembleianos: o dízimo. O autor não é este que lhes escreve, aliás, pobre de mim, humilde pecador e incauto, tecer uma linha sequer sobre o animoso assunto. Trata-se do Marcelo Lemos, pastor e blogueiro (www.olharreformado.com). Demos vez a voz que clama no deserto virtual!

Como vários leitores têm me pedido conselhos sobre a prática do Dizimo, decidi responder a todos, em linhas gerais, com base naquilo que creio e tenho praticado já há vários anos. Não identificarei nenhuma pergunta ou leitor em particular, pois a questão central em todos os questionamentos possui um núcleo comum: seria a prática do Dízimo obrigatória na Nova Aliança? Tenho uma lista considerável de perguntas a serem respondidas, aproveitarei para eliminar boa parte delas no artigo de hoje.
Acredito meus amados irmãos, que pouca gente poderia sintetizar melhor uma resposta sobre este assunto do que fez o batista reformado John MacArthur: “Dois tipos de dar são ensinados consistentemente durante toda a Escritura: dar para o governo (sempre compulsório) e dar para Deus (sempre voluntário)” (1).
Trata-se de uma afirmação teológica que ainda precisamos conferir, mas, por hora, tendo-a em mente, e tomando-a por verdadeira, estabelecemos que a natureza de tais contribuições permanece idêntica no Novo Testamento: dinheiro que entregamos ao governo (dar a César o que é de César), e o ofertar a Deus (cada um, diz S.Paulo, segundo propôs no seu coração).
Se o leitor compreendeu adequadamente a relação que tracei entre os dois parágrafos anteriores, é certo ter compreendido a intenção de mostrar que o Dizimo não era uma oferta dada propriamente a Deus, mas ao Governo de Israel, que era Teocrático: por isso, muitos confundem o dinheiro que era pago ao Governo Teocrático de Israel, com as ofertas dadas a Deus mesmo. Se necessário, vide nota (2).
Mas para se provar o dito até aqui, é obrigatório comprovar que o Dizimo era um Imposto, e não uma oferta entregue diretamente ao Senhor. Se não podemos provar este ponto, ou não o podemos compreender, permanecemos vitimados pela incrível confusão reinante em torno do tema: “O assunto tem sido grandemente confundido, todavia, por alguns que entendem mal a natureza dos dízimos do Velho Testamento” (3).
A pregação legalista sobre os Dízimos hoje, baseia-se num completo desrespeito (por ignorância mesmo) do contexto no qual a lei do Dizimo Levítico foi instituída. O povo de Israel vivia sob um regime teocrático, onde a Tribo de Levi (os Levitas) exercia a função religiosa e política sobre o povo; eles eram “pastores” e “governantes”. Como Tribo especialmente consagrada a Deus, não tinham direito a possuir bens materiais, como suas próprias terras; viviam daquilo que as demais Tribos lhes entregavam (Deut. 18.1; Jos. 13.14,33).
Dentre as contribuições feitas aos Levitas, constavam as ofertas voluntárias, e as compulsórias: compostas pelo Dizimo, e por outras taxas menores impostas (Levítico 19:9-10; Êxodo 23:10-11). Fazendo as contas, as contribuições obrigatórias dos Israelitas beiravam aos 20% de todo o seu rendimento, e não apenas a 10%, como muitos parecem imaginar.
As ofertas voluntárias destinavam-se a Divina Liturgia, ou seja, ao Culto prestado ao Senhor. Mas, e as contribuições obrigatórias? Tais contribuições funcionavam como os Impostos que pagamos hoje, e era um recurso destinado à manutenção da Maquina Estatal, incluindo suas obrigações de socorrer os necessitados: “Ao fim de três anos tirarás todos os dízimos da tua colheita no mesmo ano, e os recolherás dentro das tuas portas; então virá o levita (pois nem parte nem herança tem contigo), e o estrangeiro, e o órfão, e a viúva, que estão dentro das tuas portas, e comerão, e fartar-se-ão; para que o SENHOR teu Deus te abençoe em toda a obra que as tuas mãos fizerem” (Deut.14. 28-29).
Observe que a exigência do Dizimo hoje é uma pregação hipócrita. O discurso, normalmente carregado de uma atmosfera de medo e barganha, alega ser tal prática uma exigência de Deus para si. Além de tal afirmação ser falsa, ainda resta o fato de que a “Receita Federal de Deus”, nas nossas Igrejas, é formada, na maioria dos casos, por gente que possui muitos bens pessoais, e (quase) nula preocupação com as necessidades sociais a sua volta.
Para ser minimamente fiel a Lei do Dizimo, seria preciso que os “cobradores” de nosso tempo estivessem obrigados a fazer voto de pobreza, vivendo, por exemplo, como um padre católico romano, que pode até desfrutar de bens materiais pertencentes à Igreja, sem que sobre eles possua qualquer direito de posse. E, mesmo em tal caso, ainda restaria transformar a Igreja em um governo político. Ou seja, a Lei do Dizimo é completamente alheia à realidade do Novo Testamento.
Oferta voluntária, sem imposições exteriores, é o único padrão apresentado aos cristãos no Novo Testamento, no que diz respeito ao que deve ser entregue de bens pessoais a Igreja. De modo que, muitos talvez se surpreendam, facilmente se constata que o Novo Testamento jamais ordena a prática do Dizimo: “E digo isto: Que o que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia em abundância, em abundância ceifará. Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria” (II Cor. 9:6-7).
Com isso não quero dizer que o cristão esteja proibido de entregar o Dizimo, ou qualquer outra porcentagem a que se obrigue; mas que nenhum líder religioso pode colocar esta obrigação sobre o crente. Na verdade, dependendo da renda da pessoa (ou da família), 10% são um referencial de contribuição muito apropriado, e tento, sempre que possível, basear minha prática pessoal por essa bússola.
O único pagamento a qual o cristão está obrigado a fazer, segundo o Novo Testamento, é o recolhimento dos Impostos exigidos pelo Estado onde vive; logo, sonegar impostos é pecado (Mateus 22:15-22 e Romanos 13:1-7). O que não implica, de modo algum, que lutar por menos impostos seja pecado, desde que tal luta não se dê pela via da sonegação. 
Para mim, completamente avesso a toda e qualquer forma de socialismo, que serve apenas para maquiar a realidade, e justificar um Estado que se transforma num Leviatã cada vez maior, mais autoritário, e mais faminto, eis aqui um principio teológico a nortear minha militância política. Mas, aqui há também assunto para outro artigo, não é mesmo?  
______________
(1) John F. MacArthur Jr. Deus requer que eu dê o dizimo de tudo quanto ganho?, texto publicado no Portal Monergismo.
 
(2) Uma objeção que encontro a isto, baseia-se, quase invariavelmente, no texto no Capítulo III do Profeta Malaquias, onde se vê Deus acusando o povo de lhe roubar “nos dízimos e ofertas”. Acontece que as principais advertências de Malaquias não eram dirigidas ao povo como um todo, mas contra os sacerdotes desonestos (ladrões mesmo!). Assim, Malaquias deixa bem claro que o povo oferta a Deus, mas havia algo de errado no processo (1.6-10). O pecado é ainda mais grave, pois naquilo que o povo ofereceu a eles, havia animais aceitáveis ao Senhor (mas os sacerdotes ofereciam os defeituosos!): cf. 1.14.
Atentando a tais detalhes, pode-se começar a compreender a expressão “trazer todos os dízimos a casa do tesouro”. Os Levitas recebiam os Dízimos entregues pelo povo, e por sua vez, também dizimava aos sacerdotes daquilo que haviam recebido. Assim, o primeiro dizimo, entregue pelo povo, era a “renda” dos Levitas. Esse primeiro Dízimo tinha como função manter atividades administrativas, pois os levitas atuavam como assistentes litúrgicos, juízes, professores, artistas, construtores, guardas, etc.
Porém, da “renda” dos Levitas, eles eram obrigados a entregarem na “Casa do Senhor” (no Templo de Jerusalém), 10% de tudo que arrecadaram do povo. Esse era o chamado “dizimo dos dízimos”, que alguns vendilhões de hoje andam cobrando do povo! Ou seja, o dizimo recolhido a “Casa do Tesouro”, era a parte devida pelos Levitas aos Sacerdotes, em Jerusalém!
 
(3) John F. MacArthur Jr. Deus requer que eu dê o dizimo de tudo quanto ganho?, texto publicado no Portal Monergismo.

 Afáveis abraços acompanhados pelo desejo inefável de abundância do amor de DEUS!

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comentários
  1. Vejo o Dizimo na igreja como uma lista secreta onde é possível selecionar a partir dali a diretoria ministerial ou até mesmo os pequenos líderes que ficarão com o “Trabalho sujo” ir para a rua evangelizar… – ahhh escolhe aquele irmãozinho lá dos 50,00 de dizimo, ele vai topar ir… – Vamos abrir uma nova congregação: – Opa tem que ser o irmão dos 2.000,00! E assim vai! Acreito que Deus nos faz prosperar sobre aquilo que plantamos sim, mas acho errado a igreja tentar montar com isso um padrão hierarquico de administração.

  2. Fabrício disse:

    Um amigo meu foi consagrado a auxiliar no final do ano. Não quiseram nem saber como era a vida dele fora dali, ou se praticava o amor entre os irmãos, e se servia a Deus com humildade.. A única pergunta que fizeram foi: – O irmão é dizimista? Ele respondeu: sou sim. Dizimou o ano todo? Meu amigo respondeu: -Sim. Eles falaram: – Vamos conferir. E só.

  3. Adeilton Rufino disse:

    E aí galerinha GOSPEL…
    Estamos aí novamente com um dos meus temas prediletos a serem debatidos entre CRISTÃOS.
    Ao meu ver, dízimo é algo muito pessoal(isso do ponto de vista da voluntariedade), devido a um costume familiar e até ASSEMBLEIANO, adquiri o hábito de dar a décima parte de meus proventos, porém ninguém em minha congregação sequer sabe se estou dizimando ou ofertando pois nem ficha cadastral de dizimista eu tenho; penso que se minha oferta é para Deus, pra que “fazer como os fariseus que oram nas praças para serem reconhecidos?!”, para mim a idéia do dízimo não é um controle que o pastor terá pra saber se o irmão fulano é “fiel ou não”, mas se é uma oferta de gratidão, o meu voto fica: NÃO ÀS FICHAS DE DIZIMISTAS…

    “pode o homem controlar o que é do SENHOR?!”

  4. Caramba Romolito, eu não tinha visto um texto tão mastigadinho como esses!!!

    Agora o mais complicado é “alguém” conseguir ler esse texto e entender essa mensagem simples. O nosso problema é cultural mesmo: Ninguém gosta de ler, um texto grande como esse então; páram na metade e saem falando que estamos divulgando heresias!

    Pois bem… Este texto está perfeito!!! Nada a acrescentar. O Marcelo Lemos está de parabéns e o Rômulo por achar essa pérola!

    Abraços
    Missão, Palavra e Vida!

  5. Waldson disse:

    GalerInha de Jesus!! Qui aula em??
    Pois bem, nossas igrejas hj, forçam os fieis a “contribuír”! e digo ate mais, usam o dizimo como MOEDA de troca por cargos na igreja! Os novos escolhidos nem se quer passam por uma sabatina moral; mas se seu dizimo for alto! BINGO!!! Esse sim e o escolhido!!
    Pena que poucos sao verdadeiramente ensinado sobre o dizimo!!!
    Quantos vcs conhecem que foram consagrados apenas pelo contracheque?? Eu conheço uns 15! De prostituição ate agressão as suas esposas!!! Mas porém ,,, ganhando o suficiente para comprar o silencio dos “profetas”!!!
    Um grande abraço a todos

  6. CLEONICE disse:

    QUEM NÃO DEVOLVE O QUE É DO SENHOR, ESTÁ ROUBANDO.

  7. Duarte Henrique disse:

    Grande Rômulo,

    Mais uma vez contribuindo de forma brilhante com nosso Blog, sobrevivente e guerreiro! Pois bem, vamos ao tema. O texto tem conclusões irrefutáveis, além de ter sido muito bem escrito. Contudo, sob certos aspectos, padece de uma ambiguidade inevitável quando se trata desse tema, sem que se negue completamente a “ordem vigente”. Explico melhor. O autor provou, acertadamente segundo penso, que o dízimo é algo afeto exclusivamente a sistemática político-teológica do Velho Testamento, em nada se coadunando com os princípios do Novo Testamento. Entretanto, em nenhum momento o Pr. Marcelo afirmou categoricamente que o dízimo é algo desnecessário, o que deveria ter feito por questão de coerência. Pelo contrário, pelo que se depreende da passagem em que fala sobre o percentual de 10%, diz que pauta sua conduta pessoal com base nesse critério. Pois bem, aí está a antinomia. A única maneira possível de se superar essa contradição é afirmar categoricamente, como fazemos, que o DÍZIMO É ALGO DESNECESSÁRIO E EQUIVOCADO, mormente numa sistemática eclesiástica como é a de nossos dias, num cenário em que na maioria das igrejas não existam procedimentos básicos tais como prestações de contas, modelos de gestão de recursos compartilhada etc. A única espécie de contribuição que deve fazer parte da cultura cristã é a VOLUNTÁRIA E DE CUNHO SOCIAL, como bem destacou o autor do texto. E digo mais, não deve existir percentual! Fora disso, tudo é falácia e, na melhor das hipóteses sendo bem eufêmico, ignorância teológica. Mas e a manutenção da obra? Do templo? Bom, já faz muito tempo que venho defendendo que nesses casos o que se deve fazer é um rateio das despesas e do que se pretende investir na “obra” entre os membros da comunidade cristã. Nada mais justo. Muito teria para ser dito sobre o assunto. Então, permitam-me deixar aqui um link de um artigo que escrevi sobre o assunto num outro blog, ei-lo: http://adoracaosemlimite.wordpress.com/2010/02/25/o-dizimo-nao-e-biblico/

    Quanto ao que foi dito sobre os impostos devidos ao Estado, diversamente do que disse o pastor, entendo que o cristianismo possua um quê de anarquismo um pouco mais agudo do que o comumente pensado. Mas aí é outro assunto, como o próprio pastor deixou claro…

    Abração!

    • E a Duarte,

      Sempre chutando o balde nos comentários né??? heheheeh Vou defender o Pr. Marcelo. Pode ser que ele não afirmou categoricamente que a palavra dízimo deve ser abolida, mas fez aquele discurso politicamente correto… pra um bom entendedor, meia palavra basta. Pra falar abertamente que o “DÍZIMO É ALGO DESNECESSÁRIO E EQUIVOCADO” tem que ter coragem e não ter compromisso com o “sistema”, como você afirma em seu artigo no outro blog.

      Alias, lá tu levou muita pancada ahahaha Galera? Vale a pena passar lá no blog e dar uma espiada no nível dos comentários:

      http://adoracaosemlimite.wordpress.com/2010/02/25/o-dizimo-nao-e-biblico/

      Fuis

  8. Paz e Graça meus irmãos,

    Para FALAR do dízimo, especificamente, tem que ter muita coragem, pois é uma das coisas que sustentam este sistema capitalista evangélico.Para se levantar contra as práticas deste sistema deve-se estar preparado para ser chamado de sem fé, vazio, sepulcro caiado e desviado dentro da “igreja” como fui, e assim ser visto pelo resto de sua vida como um herege por muitos, sem falar de outros problemas que podem ser causados.
    O dízimo não está incluído na vida prática dos cristãos que vivem sob uma nova aliança, isso é irrefutável. O obra de Deus aqui é sustentada por corações voluntários que compreenderam a obra de Cristo e a partir daí, ofertam suas riquezas materiais.

    Agora ando sem tempo, mas futuramente posso acrescentar algo mais referente ao assunto.

    Abraço.

    Em Cristo.

    Thiago N. Fonseca

  9. Josué flausino disse:

    Eu acredito no Dízimo!

    Também acredito que não dar o dízimo NÃO É roubar do senhor, porque o que Nosso Deus quer É uma Oferta DIÁRIA de entrega a palavra, não simplesmente um ato as vezes movido pela coação ou barganha.

    Acredito no dízimo como forma de levar comida aos necessitados, dar lar as viuvas manter a casa de Deus e os salários de que trabalha nela (zelador vigias).

    acredito também na prestação de contas inexistente nas igrejas.

    • O Grande problema quando falamos que o dizimo é conduzido pelas igrejas para ajudar as viuvas, os necessitados e os que trabalham na conservação dos templos é porque muitas vezes usamos isso como um pretexto para continuar dizimando sem culpa, quando na verdade a igreja está interessada em comprar aparelhos de som de ultima geração, lotes para abrir outras igrejas criar eventos para membros… em fim, o dinheiro é muito mal aplicado! A destinação do dizimo deveria realmente ser voltada para ajudar as famílias necessitadas das igrejas, ou os vizinhos mais próximos a igreja que precisassem de ajuda… em fim acho que é isso.

      • Rômulo de Barros disse:

        Meu grande amigo Esdrão! Seja bem-vindo novamente.

        Você comentou uma grande verdade que questiona e muito nossa maneira de dizimar: a aplicação dos recursos.

        As pessoas entregam o dízimo e lavam as mãos. Pouco importa o destino do dinheiro. Se nossas ofertas devem ser dirigidas à ajuda dos necessitados, mas quem as administra usa-as para outro fim, está certo? Verdadeiramente o fiel dizimou?

        Recentemente questionou-se bastante o que a igreja australiana Hillsong fazia com o dinheiro: dos R$ 144 milhões recebidos no ano, somente R$ 4 milhões destinou a obras de caridade (Fonte: http://bereianos.blogspot.com/2009/04/hillsong-church-polemicas-e-escandalos.html).
        E aí??????

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