Desobediência Civil e Cristianismo – Parte 1

Publicado: 26/01/2011 por Duarte Henrique em Devocionais, Reflexão
Tags:, ,

Olá caros amigos,

Cá estou eu novamente a fim de compartilhar um pouco mais de idéias. Espero que possamos tirar algum proveito para nossa vida cristã, sobretudo para nossa praxe cristã. Pode ser que em breve tenhamos de entender o assunto tratado aqui, a força. Peço cautela ao lerem o texto a seguir, pois as idéias que apresento talvez sejam um pouco indigestas inicialmente, mas após certo tempo…  Reflita antes de qualquer juízo.

Creio que boa parte de nós acompanhou os acontecimentos recentes na cidade de Santo Antônio do Descoberto/GO ocorridos no início da semana, 24/01. Ao que tudo indica, a população local, inconformada com a situação precária do município, resolveu partir para uma ação radical, o que culminou num conflito histórico na cidade, entre a população e as forças do Estado. Conversando com meu pai sobre o assunto, percebi que o assustei um pouco quando disse não achar que a população estava errada. Meu pai é liberal, mas nem tanto. Não posso cobrar muito dele, acho que já avançou bastante em alguns pontos, mas ainda é um pastor, assembleiano… Ele acabou defendendo o ponto de vista tradicionalmente defendido pela maioria dos cristãos, qual seja, o de que devemos nos submeter as autoridades civis.

Eu disse a ele estar cônscio de que Paulo e Pedro recomendam que nos sujeitemos as autoridades civis (Rm 13.1-6 e 2 Pe 2.15). Mas acreditava piamente que Paulo e Pedro falavam num contexto jurídico, histórico e geopolítico totalmente diferente do nosso. Na verdade, tais conselhos visavam muito mais proteger os cristãos da perseguição que sofreriam caso se rebelassem contra o profano império romano do que efetivamente torná-los subalternos e despolitizados. Mesmo porque, naquele contexto nada democrático, de nada valeria qualquer manifestação de pensamentos contrários ao regime então vigente.

Ponderei com ele o fato de que, modernamente, aceitemos ou não, o Estado pauta-se basicamente na ideia do “Contrato Social”, teoria desenvolvida por teóricos como, dentre outros, os ingleses Thomas Hobbes e John Locke, e pelo francês (calvinista!) Jean Jacques Rousseau. Segundo essa teoria, de modo bastante simples, o Estado é fruto de um “contrato social” assinado pelos homens, cuja principal cláusula é a seguinte: as pessoas abrem mão do uso da violência umas contra as outras ou contra o poder central, desde que o Estado cumpra seu papel de garantir direitos básicos aos indivíduos. No contexto em que a teoria começou a se desenvolver – Estados absolutistas – tais garantias deveriam, pelo menos, abranger direitos ligados á liberdade dos indivíduos. Contudo, hoje, com a evolução para os Estados Democráticos de Direito, essas garantias mínimas também envolvem questões tais como a saúde, educação, segurança e transporte, asseguradas, inclusive, por nossa Constituição Federal.

Pois bem, a questão é a seguinte: quando o Estado deixa de cumprir seu papel básico, seja por incompetência dos governantes, falta de recursos, ou corrupção… o “contrato social” é então rescindido, e a partir daí já não existem mais regras ou normas a serem observadas por parte dos cidadãos.

Mormente num país como o nosso, onde uma pequena elite quase sempre oprimiu uma maioria ignorante e letárgica, manifestações passivas não costumam surtir muito efeito. Já está passando da hora de realmente assumirmos uma postura mais politizada em várias questões relativas ao Estado e aos nossos governos. É bem verdade que no caso do protesto em Santo Antônio do Descoberto faltou um pouco de inteligência ao movimento, tendo em vista o prejuízo que causou ao patrimônio da própria cidade. Contudo, em casos extremos, quando a negligência, indiferença e corrupção começam a ser endêmicas no governo, poucas ou nenhuma alternativa resta além da desobediência civil.

“Mas devemos ser submissos as autoridades”, insistem os cristãos mais conservadores, e precipitados ao meu sentir, sem refletir bem sobre a essência do cristianismo nessa questão. À vocês eu pergunto: se vocês estivessem na Alemanha Nazista apoiariam o governo de Hitler? Pois é, parte da igreja alemã apoiou o regime nazista por causa da tal “submissão” as autoridades civis. Pior do que isso e mais vergonhoso: foi por causa desse argumento que a igreja evangélica brasileira, de um modo geral, abaixou a cabeça para o governo da ditadura militar. Isso mesmo, nós fomos covardes e ainda usamos a bíblia como justificativa. A igreja católica ao menos tentou fazer alguma coisa. E quando o Estado começar a exigir certos absurdos por meio da lei, como a criminalização da homofobia, o que farão vocês?

A falta de politização na sociedade como um todo, mas principalmente no meio cristão já trouxe e anda traz consequências horríveis para as comunidades cristãs de um modo geral, pois começamos a abaixar a cabeça para todos os tipos de aberrações que acontecem ao nosso redor, inclusive dentro de nossas igrejas. Pastores e líderes corrompidos atuam em nosso meio livremente, mas simplesmente abaixamos a cabeça, afinal, a palavra é submissão…

Paro por aqui, pois em relação a submissão cega dentro das igrejas deixo a discussão para o próximo artigo.

Abração!

Anúncios
comentários
  1. RSF disse:

    Duarte muito bom o texto. Infelizmente , parece que nós os cristãos da atualidade somo totalmente alienados dessas questões tão pertinetes ao cristianismo. Quem ler as cartas de Paulo se depara com todos os temas relacionados ao contexto em que os cristãos primitivos estavam vivendo, sem se ouvidar de nenhum deles. Veja bem , Paulo não estava escrevendo para uma “master maginster”, ou seja a uma classe superior de mestres mas a cristão comuns , que teriam que dar respostas satisfatórias baseados na cosmovisão cristã. A palavra de Deus , embora tenha sido escrita no seu sitz im lebem , uma espressão alemã que significa lugar vivêncial , ou seja cada texto tem seu contexto histórico e precisa ser interpretado com esse pressuposto se não surge as interpretações subjetivistas e não histórico-gramatical mas as aplicações da palavra de Deus , deve ser utilizada em cada contexto e época. Em relação ao cado específico em Santo Antônio não vejo ali como desobediência civil mas como uma manifestação por reivindicações essenciais a vida porém uma manifesto não pacífico , que transformou-se em ilicito. Em relação a desobediência civil e o cristianismo, eu entendo que primeiro teriamos que explicar a muitos qual a função das autoridades e até que ponto os cristãos devem a eles obediência. Qualquer que seja a autoridade constituida , e não há autoridade que não venha de Deus Rm 13 , que ordene o que não proibe e proibe o que Deus ordena , já perdeu sua autoridade , seja isso no ambito civil ou religioso , estendendo a questão. Samuel Rutherford tem um livro muito interessante sobre isso , ele irá fazer uma exegese do texto de Rm 13. O titulo do livro é: A lei é rei. A tese principal do livro é que as autoridades estão abaixo da lei e não acima dela. Acho que já fui muito longe e divaguei demais. Só pra finalizar cito Francis A. Schaeffer , em seu livro o manifesto cristão diz: “A igreja pagará um preço muito caro pelo seu silêncio. Acho no meu ver que já está pagando. Leiam a sua trilogia. A morte da Razão , O Deus que se revela e o Deus que intervém.A braços a todos. Que Deus desperte nossa geração.

    • PAULO SOARES disse:

      “Pastores e líderes corrompidos atuam em nosso meio livremente, mas simplesmente abaixamos a cabeça, afinal, a palavra é submissão…”
      sabias palavras… mas tomando emprestado seu texto, quero “apimentar” a discussão: eis o motivo porque tantos pilantras pseudo pastores ainda continuam “pastoreando”. usam a falta de conhecimento da membresia para perpetuar no poder, como se o Reino de Deus fosse uma dinastia, onde o “Rei” coloca seus príncipes nas melhores cidades para governar !
      alguns chegam ao absurdo de dizer que a “oração da propina” foi armação. quem afirma isso com certeza tem culpa no cartorio. e o que dizer de “pastores” envolvidos na caixa de pandora, corrupção e tantas atrocidades cometidas em nome de “Deus”.
      como diz a Bíblia em gálatas esses tais que pregam um evangelho diferente do ensinado por Cristo, devem amaldiçoados, ou no grego utilizado no texto, devem ser destruídos.

  2. RSF disse:

    errata: proibe o que Deus ordena e ordena o que Deus proibe.

  3. waldson disse:

    Grande Mestre Duarte…
    Abaixo a submissao cega!!!

  4. waldson disse:

    Galerinha Euforica!!!
    Eu sei que o tema e muito bom pra pegar no pe dos “grandiosos”! Mas pesso a todos os leitores e escritores que moderem os comentarios que acabam nos igualando aos proprios transgressores! VAmos parar de da ibope pra quem nao merece nossa confiança!
    O texto do mestre Duarte como sempre foi fantastico!

  5. Rômulo de Barros disse:

    Os fins NÃO justificam os meios. Discordar do governo e promover manifestações é algo lícito, democrático, mas usar da violência é algo criminoso, irracional.

    Agora, esse negócio de se submeter às autoridades de forma absoluta, pra mim é falácia, é subterfúgio.

    Eu o entendo, professor, quando sustenta que a população do Sto. Antônio não estava errada. Não sou como uns por aí que leem e se escandalizam, fazendo juízo preconceituoso. Todavia, continuo acreditando que há muitas maneiras de manifestar a irresignação e que a violência é a mais reprovável delas.

    Gandhi foi um grande nome da “desobediência civil”. Ele estimulava-a sem o uso da violência. As pessoas reuniam-se em massa contra diversas coisas, sempre renunciando a agressões e a tumultos.

  6. Paz e Graça meus irmãos,

    De fato e de verdade não se deve usar de violência, devemos nos submeter ao que governo nos impõe até onde ele não venha ferir as Escrituras.
    Nós como igreja deveriamos lutar contra o que o governo nos impões com unhas e dentes? Complicado, nosso reino não é este, e nossa majestade não é a Dilma!

    Proclamemos a verdade que é Cristo!

    Thiago N. Fonseca

  7. Josué flausino disse:

    Um… entendo.

    Queria que o pessoal aqui da capital seguisse o exemplo.

  8. Josué flausino disse:

    Me lembrei do tempo de escola (escola pública) quando manifestava-mos lá no plano.

    Bons tempos

    • Me lembro que éramos levados pelos professores como massa de manobra… muitos de nós nem sabíamos o que estávamos fazendo ali…
      Se fosse hoje, só iria se fosse favorável à causa e não para fazer volume…
      Tsc Tsc Tsc….

      • Josué flausino disse:

        O passe livre que meu irmão usa hoje foi graças as nossas manifestações.
        Tinha mesmo muito apelo político (pró PT) mas uma meta (passe livre) foi alcançada.

  9. Galera,

    Acabei de ler um texto (Ética, moral, lei e consciência) do Ed René Kivitz que trás a seguinte conclusão:

    “Fica claro, portanto, que somente o tolo obedece sempre, e somente o sábio é capaz de desobedecer a lei sem transgredir a ética. Poucos são os capazes de andar na ilegalidade sem cair na imoralidade. E isso faz do Direito uma ciência extraordinária e bela, pois visa a justiça, acima da lei. Está explicado porque o Cristianismo, em vez de apresentar um novo código moral, faz um convite desafiador à nova consciência.”

    Vejam o texto completo em: http://edrenekivitz.com/blog/2011/01/etica-moral-lei-consciencia/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s