Desobediência Civil e Cristianismo – Final (o ser)

Publicado: 15/02/2011 por Duarte Henrique em Devocionais, Reflexão
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Saudações meus caros coetâneos,

Mais uma vez a graça de Deus nos permite estar aqui. Utilizo nesse post o mesmo título dos anteriores , muito embora o assunto tratado agora se distancie um pouco da epígrafe. Do alto de minha minúscula cátedra filosófico-teológica lhes escrevo esse texto, quiçá presunçoso, mas certamente bem intencionado, fruto de um diletantismo que, se não é lá dos mais nobres, cuido também não ser dos mais vis.

Em síntese, nas duas postagens anteriores o que se discutiu foi a liberdade de expressão, seja na esfera civil, seja na esfera religiosa. Agora, gostaria de finalizar o assunto falando um pouco sobre a liberdade de expressão mais profunda que coube a nós, seres humanos: a liberdade de expressão do ser.

Não é novidade para ninguém o fato de vivermos num mundo cheio de regras, conceitos e valores, os mais diversos possíveis. A todo instante, desde o nascimento, somos pressionados pela mídia, pela religião, pela família, pelo governo, por normas éticas e estéticas a fazer opções e, ao mesmo tempo, construir nosso caráter, personalidade e conduta tendo que nos nortear em meio a esse pandemônio de idéias.

Contudo, não obstante a grande tentação de nos apegarmos a um determinismo radical, em que ninguém é culpado de nada, posto sermos todos “frutos do meio”, surge o apóstolo Paulo e nos diz que, em última análise, nossa consciência deve ser a grande juíza de toda nossa existência (I Co 11.28), afinal, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus (Rm 14.12). Eis aí a liberdade, liberdade cristã, desafiadora…

Desafiadora porque, em última instância, compete a mim decidir meu destino e, ao mesmo tempo, me responsabilizar por ele. Sartre dizia que as pessoas não gostam da idéia de liberdade porque a liberdade, tomada em sua essência, acaba responsabilizando o próprio sujeito por todos os acontecimentos em sua vida, quer bons, quer ruins. Afinal, você é livre. Infelizmente a maioria dos homens sempre preferiu entregar sua liberdade a outras instâncias, que não a da própria existência. Ora, é mais cômodo poder culpar o governo, a sociedade, meus pais, minha igreja ou meu pastor por meus fracassos, do que assumir a idéia, grave e profunda, de que ninguém além de mim mesmo seja responsável por minha existência.

Mesmo meus valores mais sagrados, como Deus e a bíblia, por exemplo, devem ser frutos de uma escolha racional e voluntária, e não frutos de uma submissão cega pautada numa autoridade que esses entes tenham em si mesmos, pois assim agindo, irracionalizo minha própria vida, noutras palavras: a inutilizo. Abrindo mão de minha racionalidade, torno-me um escravo do sistema, um cidadão ordinário, um cristão medíocre, um ser humano risível.

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, dizia Jesus. A todo instante a verdade nos convida silenciosamente, pois sua voz provoca alardes dentro da caverna (Platão). O preço da liberdade já foi pago. Ter consciência dessa liberdade é outra história amigo. Talvez, o caminho dos incendiários (Nietzsche) seja realmente um caminho perigoso, mormente num mundo obscuro como o nosso, que rejeita a luz (Jo 1:5). Todavia, não existe nada mais deliciosamente realizador que a satisfação de assumir a si mesmo: “sou um ser livre, apaixonado por minha liberdade e que, racionalmente, assume as responsabilidades que de seu exercício advenham”. A partir de então, um novo horizonte se descortina diante de nós, e o “existir” se transforma em “viver” (Oscar Wilde).

Sei que esse é o tipo de texto que para muitos é chato; para outros tantos, enigmático. Porém, para alguns,  é tão somente mais uma comunicação espiritual perpetrada ao longo de nossa história, por espíritos livres! A esses escrevo, e desses recebo, hoje e sempre!

Que Deus, em Cristo, nos abençoe!

Abração!

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comentários
  1. Fabrício disse:

    Duarte mais do que inspirado.

  2. Rômulo de Barros disse:

    Cara, isso é muito profundo, isso mexe com a essência do ser humano.

    A questão da liberdade e da consciência é extremamente complexa. Veio à minha mente o livro “Quando Nietzche chorou”, de Irvin D Yalon, quando o mentor da psicanálise Breuer se vê numa confusão de sentimentos. Ele pensava que a liberdade estava em satisfazer seus anseios sexuais com uma paciente, porém, no fim, ele descobre que o “ser livre” passava longe do que, naqueles tempos, sua consciência lhe impunha.

    E como é difícil ser humanamente livre… O próprio JESUS foi confrontado em sua liberdade. A emblemática passagem em que o Mestre chora amedrontado pela iminente crucificação demonstra o quão complicado é, ao ser humano, conquistar a liberdade. Ele era rei, tinha seu trono. Tornou-se opróbrio, escárnio, e trocou sua cadeira em alpendre esplendoroso por uma cruz no calvário.

    Se julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados…

  3. Josué flausino disse:

    consultando o dicionário…

  4. Roberto Cantanhede disse:

    É meus caros, a liberdade tem um preço. Pode custar quase nada ou pode custar tudo o que conhecemos. Aí na hora de ter fé para abrir mão de ontem para desbravar o amanhã HOJE é que se vê quem está disposto a pagar esse preço. Davi foi quem foi mas não pode reconstruir o templo e nem teve uma família tranquila. Saul já tinha o espírito atribulado, embora não pudesse ser tocado por Davi. Não tem para onde fugir. A nossa justiça é trapo de imundícia; veja também que se temos aflições, o conselho é tende bom ânimo “eu venci o mundo”. E ninguém vence inerte.

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