“Deus nos livre de um Brasil evangélico”.

Publicado: 14/03/2011 por anybody em Devocionais
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Fala, meu povo!

Texto indicado por uma grande amiga, de autoria do pastor e teólogo Ricardo Gondim, presidente da Assembleia de Deus Betesda.

Começo este texto com uns 15 anos de atraso. Eu explico. Nos tempos em que outdoors eram permitidos em São Paulo, alguém pagou uma fortuna para espalhar vários deles, em avenidas, com a mensagem: “São Paulo é do Senhor Jesus. Povo de Deus, declare isso”.

Rumino o recado desde então. Represei qualquer reação, mas hoje, por algum motivo, abriu-se uma fresta em uma comporta de minha alma. Preciso escrever sobre o meu pavor de ver o Brasil tornar-se evangélico. A mensagem subliminar da grande placa, para quem conhece a cultura do movimento, era de que osevangélicos sonham com o dia quando a cidade, o estado, o país se converterem em massa e a terra dos tupiniquins virar num país legitimamente evangélico.

Quando afirmo que o sonho é que impere o movimento evangélico, não me refiro ao cristianismo, mas a esse subgrupo do cristianismo e do protestantismo conhecido como Movimento Evangélico. E a esse movimento não interessa que haja um veloz crescimento entre católicos ou que ortodoxos se alastrem. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil tem que virar “crente”, com a cara dos evangélicos. (acabo de bater três vezes na madeira).

Avanços numéricos de evangélicos em algumas áreas já dão uma boa ideia de como seria desastroso se acontecesse essa tal levedação radical do Brasil.

Imagino uma Genebra brasileira e tremo. Sei de grupos que anseiam por um puritanismo moreno. Mas, como os novos puritanos tratariam Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Maria Gadu? Não gosto de pensar no destino de poesias sensuais como “Carinhoso” do Pixinguinha ou “Tatuagem” do Chico. Será que prevaleceriam as paupérrimas poesias do cancioneiro gospel? As rádios tocariam sem parar “Vou buscar o que é meu”, “Rompendo em Fé”?

Uma história minimamente parecida com a dos puritanos provocaria, estou certo, um cerco aos boêmios. Novos Torquemadas seriam implacáveis e perderíamos todo o acervo do Vinicius de Moraes. Quem, entre puritanos, carimbaria a poesia de um ateu como Carlos Drummond de Andrade?

Como ficaria a Universidade em um Brasil dominado por evangélicos? Os chanceleres denominacionais cresceriam, como verdadeiros fiscais, para que se desqualificasse o alucinado Charles Darwin. Facilmente se restabeleceria o criacionismo como disciplina obrigatória em faculdades de medicina, biologia, veterinária. Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos e Derridá nunca teria uma tradução para o português.

Mozart, Gauguin, Michelangelo, Picasso? No máximo, pesquisados como desajustados para ganharem o rótulo de loucos, pederastas, hereges.

Um Brasil evangélico não teria folclore. Acabaria o Bumba-meu-boi, o Frevo, o Vatapá. As churrascarias não seriam barulhentas. O futebol morreria. Todos seriam proibidos de ir ao estádio ou de ligar a televisão no domingo. E o racha, a famosa pelada, de várzea aconteceria quando?

Um Brasil evangélico significaria que o fisiologismo político prevaleceu; basta uma espiada no histórico de Suas Excelências nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para saber que isso aconteceria.

Um Brasil evangélico significaria o triunfo do “american way of life”, já que muito do que se entende por espiritualidade e moralidade não passa de cópia malfeita da cultura do Norte. Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica e viria a criar uma elite religiosa, os ungidos, mais perversa que a dos aiatolás iranianos.

Cada vez que um evangélico critica a Rede Globo eu me flagro a perguntar: Como seria uma emissora liderada por eles? Adianto a resposta: insípida, brega, chata, horrorosa, irritante.

Prefiro, sem pestanejar, textos do Gabriel Garcia Márquez, do Mia Couto, do Victor Hugo, do Fernando Moraes, do João Ubaldo Ribeiro, do Jorge Amado a qualquer livro da série “Deixados para Trás” ou do Max Lucado.

Toda a teocracia se tornará totalitária, toda a tentativa de homogeneizar a cultura, obscurantista e todo o esforço de higienizar os costumes, moralista.

O projeto cristão visa preparar para a vida. Cristo não pretendeu anular os costumes dos povos não-judeus. Daí ele dizer que a fé de um centurião adorador de ídolos era singular; e entre seus criteriosos pares ninguém tinha uma espiritualidade digna de elogio como aquele soldado que cuidou do escravo.

Levar a boa notícia não significa exportar uma cultura, criar um dialeto, forçar uma ética. Evangelizar é anunciar que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, praticar a justiça e criar meios de solidariedade; Deus não é rival da liberdade humana, mas seu maior incentivador.

Portanto, Deus nos livre de um Brasil evangélico.

 

Saudações!!

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comentários
  1. Josué flausino disse:

    Se esse texto se refere a “falsa religiosidade” eu assino em baixo.

    Agora prefiro um Brasil temente a Deus do que um Japão……….. você já sabe.

    Abraçoo

  2. Duarte Henrique disse:

    Grande Rômulo,

    Excelente texto para reflexão. É bastante indigesto, mas tem uma parcela de verdade muito grande. Ora, quantos de nós não gostaria de poder usar os poderes do Estado a nosso favor enquanto evangélicos? Não é exatamente esse o discurso dos candidatos evangélicos nas eleições? Com certeza uma da áreas mais prejudicadas seria a educação. Ela é sempre a primeira a ser atacada em qualquer sistema teocrático. De fato, antes de termos um país de evangélicos (no sentido atribuído ao termo no texto) é melhor termos um país de pessoas com caráter, independentemente de opções religiosas. É bem verdade que está escrito “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor!”. Contudo, entendo que a apreensão de Deus como nosso senhor não seja apanágio exclusivo de nenhuma manifestação positiva de doutrina ou grupo religioso existente ou que já tenha existido até o momento.

    Abração.

  3. Fabrício disse:

    Convivi com muitas pessoas da igreja e muitas do “mundo”, e algo que poderia acrescentar no texto é que os “crentes” são o povo com mais dificuldade em perdoar o proximo. Temos um espírito julgador. Moralista. Um Brasil evangélico, acredito eu, seria um país com mais julgamentos, e menos perdão.

    • @victorhug01 disse:

      Concordo 100% com o Fabrício… Os evangélicos são os que mais apontam o dedo quando o outro erra (isso acontece, pq são os que mais erram, por isso tentam justificar seu erro, julgando os outros), o que menos perdoá, e o que mais faz fofoca e causam intrigas. Quando é político então, nem se fala, oram em nome Deus agradecendo o roubo, são presidentes de igrejas, dentre outros casos, que não precisa ser citado aqui…
      Tenho pensado bastante se quero criar meus filhos nesse meio. Pois tenho certeza que Deus não anda por lá.
      Ps: Sei que tem pessoas boas e de bom coração na igreja, mas, infelizmente não é a grande maioria.
      A igreja precisa de uma nova identidade.

  4. Paz e Graça,

    Convido a todos para conhecerem meu novo Blog, o http://WWW.OBICHOESTASOLTO.BLOGSPOT.COM. Neste tento expressar de forma pálida a situação da cristandade, talvez desenhando alguém entenda.

    Abraço!!!

    Thiago N. Fonseca

  5. Adeilton Rufino disse:

    Olá galerinha gente fina, já havia um tempo que a matemática, a física e os projetos não me deixavam comparecer nessa maravilha aqui. Mas enfim, vamos ao que interessa, por mais que o texto tenha me parecido meio que uma apologia à coisas como REDE GLOBO (o que não muda o fato da Record ser uma vergonha para os CRISTÃOS); A SITUAÇÃO ESTÁ COMPLICADA, mas não para os cristãos, todo e qualquer país governado por uma religião tem fortes tendências em reprimir alguns atributos culturais, com os EVANGÉLICOS não seria diferente (como diria Caio Fábio, o problema de “crente” é que eles falam de uma coisa que nem se quer eles conhecem, amor de Deus).

    PARA FINALIZAR, EU A CADA DIA PENSO MAIS QUE JESUS NÃO QUERIA FUNDAR UMA RELIGIÃO, POIS ISSO IMPLICARIA CERTOS RITUAIS E, AO MEU VER, UMA DAS COISAS QUE JESUS MAIS INSISTIU EM DEFENDER FOI A LIBERDADE DE LOUVOR, SEM AQUELA COISA RESTRITA.

    Precisa-se de Cristãos? NÃO! Precisa-se de pessoas que temem a Deus.

    • Roberto Cantanhede disse:

      Apologia à coisas como Rede Globo? Não se precisa de cristãos? Hum…
      Adeilton, você também acredita que o arco íris é simbolo da homosexualidade?

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