Santos e Pecadores, ao Mesmo Tempo…

Publicado: 09/06/2011 por Duarte Henrique em Devocionais, Reflexão
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Outro dia conversava com alguém no meu serviço acerca de um aspecto da concupiscência humana. Assim como eu, essa pessoa é cristã. O que ela defendia, resumidamente, é que o cristão após sua conversão vai deixando de pecar cada vez mais, até que em certo ponto ele não mais pecará, ou então isso se tornará algo extremamente acidental em sua vida. Me lembrou muito a doutrina da “perfeição cristã”, defendida por John Wesley, conforme já li.

Espero que não me tomem por libertino. O Senhor guarde meu espírito.

Disse a ela acreditar que as coisas não funcionavam assim. Por dois motivos básicos. Primeiro, se fosse possível atingir esse estágio espiritual, Cristo sequer precisaria ter morrido por mim, pois eu mesmo poderia ser salvo por meio de minhas obras, não precisaria de sua graça.

O segundo motivo que me leva a crer que a vida cristã não funciona assim é o fato de que quando olho para dentro de mim sempre encontro aquele velho dilema paulino: “O bem que quero não faço, mas o mau que não quero, esse faço”. “Você está generalizando sua experiência particular!”, pode alguém dizer. Então olhe para si mesmo e ao final diga se não é assim…

Penso que a premissa da qual minha colega de trabalho estava partindo é equivocada, muito embora seja comum entre muitos cristãos, qual seja, a de que quando somos alcançados pela graça divina deixamos de ser pecadores. Na verdade, mesmo após a conversão continuaremos a ser sempre, como dizia Lutero, “santos e pecadores”.
Se dependesse de mim, eu realmente gostaria de jamais me alterar em situação alguma, nunca ter nenhum desejo “carnal” reprovável, jamais mentir, jamais ter inveja, ira, jamais me abater ou desanimar etc. Entretanto, vez ou outra me pego em todas essas situações e então suplico: “Pobre e miserável homem que sou, quem me livrará do corpo dessa morte?”. A resposta a essa pergunta é fundamental, pois caso a respondamos equivocadamente estaremos expostos a uma das maiores neuroses de todos os tempos, a saber, o eterno sentimento de culpa e fracasso provocado pelo pecado. A única resposta plausível para a pergunta paulina é a que ele mesmo dá: “Dou graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor”. Essa deve ser nossa resposta. Nós jamais deixaremos de pecar, por mais que nos esforcemos. Aliás, se insistirmos demasiadamente nisso como algo fundamental, corremos o risco de nos tornar pessoas intolerantes com nós mesmos e com as outras pessoas ao nosso redor. A vida se tornará um eterno suplício. É uma pena que tantos cristãos em nossos dias, assim como aconteceu desde sempre na história da igreja, sofram dessa neurose, pois se esquecem que foi exatamente para nos libertar dela que Cristo morreu na cruz.

Não estou dizendo que podemos pecar inconseqüentemente, isso seria uma redução ad absurdum infantil, tal qual os romanos poderiam fazer, na visão de Paulo (Rm 6.1). Aliás, o pecado machuca, e muito, nosso espírito, coisa que não acontece com o pecador indolente. Contudo, acredito que a vida seja curta demais para ficarmos perdendo tempo com essa psicose antropocêntrica.  Sermos ou não pessoas melhores não dependerá de nosso esforço, mas sim de uma profunda e gradual compreensão da graça de Deus. Pensa o contrário? Então experimente não pecar? Diga a si mesmo, jamais pecarei novamente! Vai se decepcionar. Você sempre terá seu corpo (sentidos) ao lado do espírito (razão). “O pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar“, disse Deus a Caim. Ai de nós se não fosse Cristo.

Talvez, nossa condição de pecadores sirva como uma espécie de “espinho na carne” de modo a jamais nos esquecermos da graça de Deus em nossa vida. Quiçá, acreditar, como acredito, que jamais perdemos nossa salvação, pois ela é dada por Deus e ele mesmo a garante, possa parecer uma desculpa para pecar livremente, como alguns defendem. Contudo, eu prefiro continuar dependendo sempre da graça divina a ter que algum dia depender das minhas obras. A graça ou as obras, você escolhe…

Abraços!

comentários
  1. Josué Flausino disse:

    Karai…. vai de encontro com pensamento que passa pela minha cabeça esses últimos dias.

    MISERÁVEL HOMEM QUE SOU, Não posso ir a Cristo, Senhor leva-me ajuda-me. A natureza humana é pecado, pecado e mais pecado. Até quando o homem Pensa ter atingido um posição sem pecados, nisso ele está PECANDO.

    “Senhor salva-me ou pereço, porque eu não posso salvar-me a mim mesmo”

    Duarte, pede pra essa amiga sua ter uma conversa com um monge tibetano, assim ela vai o quanto falta pra atingir a “perfeição espiritual”.

    Teu texto dispensa comentários.

    abraço

  2. Milena disse:

    Como sempre, ótimo texto. Tocou em um tema interessante.
    Já que estamos compartilhando experiências, vou contar um caso que aconteceu há uns três ou quatro anos, na comunidade da UnB no orkut. Naquela época, o orkut ainda era muito utilizado e a comunidade era bastante agitada.
    Num belo dia uma aluna entrou na comunidade convidando todo mundo para visitar a célula dela. O problema foi que, no meio do convite, ela disse que os cristãos eram santos. Literalmente.
    Vocês não imaginam a discussão que isso gerou. Espíritas, ateus e etc., todo mundo entrou no debate para dizer que ninguém é “santinho”, e nós, os cristãos, tivemos que entrar no debate para tentar apaziguar as coisas, mas obviamente isso não funcionou. A discussão tomou proporções tão grandes que ultrapassou 10.000 mil comentários e o moderador se viu obrigado a apagar o post, pois até ofensa pessoal já tinha no meio.
    Na época percebi uma diferença importante que muitos cristãos não observam: ser cristão não é ser santo, é VIVER EM SANTIDADE. Segundo o meu entendimento, isso significa tentar fazer o que é certo, mesmo quando a carne tá ali, te enchendo o saco, te fazendo lembrar que nem tudo na vida é um mar de rosas.

  3. Josué Flausino disse:

    Recomendo.

    C. H. Spurgeon (sermão)

    “Oh! Opróbrio da humanidade: nunca houve alguma criatura tão perversa como o homem. As próprias bestas são melhores do que ele. Porque o homem tem os piores atributos delas. Ele tem a ferocidade do leão sem a sua nobreza; tem a teimosia de um asno sem a sua paciência; tem toda gula devoradora de um lobo, sem a sabedoria de evitar armadilhas. Ele é um abutre ávido por cadáver, porem nunca está satisfeito. Ah, se você julgasse a natureza humana por sua forma de tratar a Deus, verdadeiramente reconheceria que é demasiada má para poder ser remendada, e que é necessário ser feita de novo.
    Novamente, há outro aspecto sobre o qual podemos considerar a malignidade da natureza humana: o seu orgulho. O orgulho está entrelaçado na própria trama e urdume de nossa natureza, e não nos desfaremos dele até que sejamos envoltos em nosso sudário.
    É surpreendente que quando estamos em nossas orações – quando tentamos fazer uso de expressões humildes, somos denunciados pelo orgulho. Me aconteceu isso outro dia, quando me encontrava de joelhos, fazendo uso de uma expressão como esta: “Oh Senhor, me aflijo diante de Ti; oxalá não tivesse sido tão pecador como tenho sido. Oh, se nunca me revoltasse e rebelasse como tenho feito”. Ai estava o orgulho porque, quem sou eu? Por que me lamentava? Eu deveria saber que eu era tão pecador que não era anormal ter me extraviado anteriormente. A maravilha era que eu não tinha chegado a ser tão mal devido a Deus, e não devido a mim mesmo. De forma que quando tentamos ser humildes, podemos estar imprudentemente precipitando no orgulho. Que coisa estranha é ver um miserável pecador orgulhoso de sua moralidade!; e apesar disto, é algo que encontramos todos os dias. Um homem orgulhoso de sua castidade, e todavia se olharmos para seus pensamentos, eles estão cheios de lascívia e impureza. É uma coisa espantosa e estranha pensar que o homem possa ser orgulhoso, quando ele não tem NADA de que se ufanar. Um pedaço de barro vivo e animado – poluído e corrompido, um enfermo vivente, e contudo orgulhoso. Eu, um filho bastardo daquele que roubara o jardim de ouro de seu Mestre, daquele que se desviou e não quis ser obediente; daquele que desprezou tudo quanto tinha pelo vil valor de um fruto. Eu que vivo da caridade diária de Deus, orgulhoso de minha riqueza, quando não tenho um centavo para me abençoar a menos que Deus decida dá-lo a mim!
    Nós não podemos nos salvar, estamos totalmente em suas mãos Deus, como uma traça que é esmagada sob o dedo. Ele pode nos esmagar se ele quiser, ou ELE pode nos dar liberdade e nos salvar.”

    Áudio:

    Fonte: http://www.josemarbessa.com/

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