O Medo de Si…

Publicado: 20/07/2011 por Duarte Henrique em Devocionais, Reflexão
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Nota: Ontem ao conversar com um amigo sobre o artigo, pareceu-lhe confuso a utilização do termo “misantropia” no texto, o que mereceria um esclarecimento. O termo misantropia aqui utilizado não tem a conotação atribuída ao mesmo conforme se depreende de pesquisas feitas na internet, ou seja, aversão a humanidade, aos homens etc. A utilização do termo aqui tem uma conotação mais rousseauniana, isto é, a civilização corrompe o indivíduo, que nasce bom e assim permanece enquanto permanecer na solidão.Contudo, para que fique mais claro o real significado da coisa, me utilizo de duas categorias de Jung para deixar mais claro: O que o texto defende é a introversão – segundo Jung – ao invés da extroversão.

Talvez esse texto não passe de uma leviana justificativa para meu comportamento misantropo. Todavia, pode ser também que se trate de mais um clamor lançado pelo Espírito em busca de seus filhos perdidos. O assunto é amplo, são apenas prolegômenos. Escrevo sempre com a melhor das intenções, o que já é o bastante. Os fins justificam os meios.

Lembro-me que meu irmão costumava me chamar de “anti-social” simplesmente porque nunca fui muito adepto da chamada “vida social”. De fato, nunca gostei muito de sair de casa ou frequentar lugares muito badalados ou sociais. Nunca fui muito ligado à “galera”. Que eu me lembre, sempre tive essa tendência.

Sei que muitas vezes esse comportamento fez com que algumas pessoas me achassem arrogante, pernóstico, elitista ou coisas do gênero. Porém, posso garantir que não é nada disso.

É evidente também que esse caráter introvertido pode muitas vezes parecer puro egocentrismo ou até mesmo egolatria. Entretanto, se conseguirmos superar nossa percepção meramente sensorial, concluiremos que, em essência, este deveria ser o objetivo, ou ao menos o primeiro passo a ser dado por todo aquele que realmente deseja atingir estados de espiritualidade mais avançados em sua vida.

Para ser sincero, noto que a maioria das pessoas têm medo de estar consigo, têm medo de enfrentar o seu próprio “eu”. Sofrem daquilo que poderia se denominar de “carência social”, “fuga de si”. Pessoas há que se tiverem de passar um final de semana em casa, enlouquecem ou ficam deprimidas! Tem de inventar algum “programa”, alguma atividade. Não conseguem ficar consigo um instante sequer!

Recentemente terminei de ler um livro de Paramahansa Yogananda, um mestre hindu do século XX. É impressionante a importância que as religiões tipicamente orientais dão ao aspecto da “solidão” e da introspecção. Sem uma profunda entrega aos doces momentos de solidão, em que finalmente temos de encarar a nós mesmos, jamais será possível alcançarmos qualquer iluminação. É necessário estar consigo, travar profundos solilóquios a fim de nos libertarmos da ilusão “social” e da perda do eu em meio a multidão. Mutatis mutandis, o cristianismo, ontológico, tem a mesma mensagem. Nós é que ignoramos totalmente esse seu aspecto. Veja a vida de grandes cristãos (Agostinho, Francisco de Assis, Paulo, Jonathan Edwards, Tomás de Kempis só para citar alguns) e do próprio Jesus, e você verá pessoas que sempre souberam estar consigo. A meditação é algo extremamente produtivo, e não tem nada a ver com nova era ou panteísmo, que também se utilizam dela em certa medida. Somos uma geração que reflete apenas o que vem de fora, da “vida social”, e não o que vem de dentro, do nosso “eu”.

A vida social de muitas pessoas acaba se tornando o suicídio do próprio “eu”, algo fatídico, pois é exatamente lá que se encontra o nosso espírito, o que realmente somos. Sem um contato com nosso espírito, seremos apenas fantoches sociais.

Definitivamente não estou menoscabando a amizade ou as boas companhias. Contudo, lhes afirmo que as melhores amizades e companhias não são frutos de uma rede social (Orkut, Face Book etc.) ou do mero convívio social (igreja, trabalho, vizinhança etc.). São frutos, antes de qualquer coisa, da união de pessoas que, por terem aprendido a conviver e a se realizar consigo e com Deus, estão prontas para finalmente manter relacionamentos com seus próximos, sem que exista em tais relações inveja, disputas, malquerenças, intrigas, obsedações ou fixações.

As amizades sociais geralmente são muito pautadas em interesses afins ou em tênues convivências que, aos menores desentendimentos, são interrompidas. Amizade verdadeira dura para sempre. Amigo de verdade é aquele que aprendeu a não depender dos amigos para ser feliz, pois não tem medo de estar consigo. Jamais irá sufocar seus amigos exigindo deles alguma coisa em nome da “amizade”.

Enquanto eu não aprender a estar comigo, na quietude de meu espírito, jamais estarei preparado para qualquer convívio social sadio. Pelo contrário, serei uma pessoa carente dos outros, de baladas, festas, cinemas e “saídas”. Apenas mais um no rebanho. Minhas conversas em grupo serão sempre superficiais e improdutivas, sem vida.

Cristo disse certa vez que o Reino de Deus está dentro de nós (Lc. 17.21). A menos que aprendamos a buscar esse Reino, jamais estaremos preparados para qualquer outra coisa em nossa existência.

De seu amigo em Cristo, Duarte Henrique.

comentários
  1. *misantropo:
    Que ou quem tem aversão aos seres humanos
    Que ou quem não gosta da convivência social.
    Que ou quem é melancólico.

    *Prolegômenos:
    Introdução circunstanciada que precede uma obra.

    *solilóquios:
    Acto de falar sozinho. = MONÓLOGO
    novas palavras pro meu vocabulário! \o/

    Legal. Essa necessidade de estar em grupo, não seria também uma imposição social ? (dependendo do país)

  2. Adeilton Rufino disse:

    O interessante é q muitas pessoas só conhecem o “agir” do Espírito Santo em grupo….em congressos e acampamentos; já pensou que pode ser emoção coletiva? Se não há uma vida individual com Deus, acredite, há grandes possibilidades de o ser.

  3. Roberto Cantanhede disse:

    Doutor Duarte e estimados leitores do MPVida! Como sempre os textos do Duarte tem que trazer algo polêmico para que ele possa manter sua fama, embora eu não o ache polêmico. Concordo que o aspecto introspectivo precisa ser revisto pela sociedade hodierna, mas dizer que isso é misantropia é um exagero sem tamanho (ou é uma confissão?). Se a gente espera pelo menos ser cristãos marginais temos que amar o próximo, e isso não quer dizer ficar mimando o próximo ou mantendo-o debaixo dos nossos olhos, mas misantropia é a antítese do que defendemos em qualquer espectro, seja o da missão integral seja o do “ide” ou a via do testemunho pessoal. Ou no fundo, sua modéstia as vezes gera ruído meu amigo!

  4. Rômulo de Barros disse:

    Mestre Duarte, quanto tempo!

    Primeiro eu quero parabenizá-lo pelo texto. Há algumas palavras cujo conhecimento não é amplo e, por isso, será sempre pertinente você colocar uma espécie de glossário pra nós recorrermos. Todavia, existe uma riqueza ímpar na prosa, riqueza esta que não encontramos em revistinha de escola dominical ou em bancada de igreja protestante, católica, em reunião espírita etc.

    Admiro e sigo a postura de não restringir a leitura às escrituras. Permito-me também viajar pelas linhas de pensamentos alternativos – sem deixar a fé, obviamente.

    Acredito na coerência de seu pensamento. Mas o caminho para a autorrealização é longínquo. Alcançar esse horizonte é para poucos (ou pra ninguém). Nesse sentido, eu colho a opinião de muitos ilustres sobre a postura do iniciado espiritualmente:

    – STOTT ensina que a plenitude do amor de Cristo faz com que o cristão não veja as coisas com um fim em si mesmas – ele não transa só pelo prazer inerente ao sexo, pois não é alimentador de glândulas; ele não tem casos, pois sua essência é a perpetuidade – a partir do seu racionalismo.

    – LEWIS diz que o verdadeiro cristão se abstém de julgar, pois só vemos o resultado das escolhas que os homens fazem a partir da matéria-prima de que dispõem. DEUS não os julga por sua matéria-prima, mas pelo que fizeram com ela (isto é, pra DEUS é ruim quem tinha bondade e não a compartilhou; e é bom quem tinha maldade e em boas ações superabundou).

    – RHODEN declara que o iniciado possui desvinculação com as coisas efêmeras, ele não se apega a dinheiro, bens, poder, fama.

    Pensemos: quem conhecemos que reúna tais qualidades? Ou, indo mais longe: que possua ao menos uma dessas virtudes e a mantém rígida na vida?

    O caminho mais longe é o mais curto pra se chegar em casa.

    • -MADRUGA afirma que se os elefantes não tivessem trombas, sereriam capivaras!

    • Duarte Henrique disse:

      Grande Rômulo, Realmente já faz muito tempo hein meu amigo! Não nos abandone, aqui, nesse recanto da reflexão!

      Na verdade, não é bem uma “autorrealização”, pois, em nós mesmos, no homem “natural” nada há de bom. Contudo, se olharmos para o homem “espiritual” aí sim começaremos a grande jornada, “que começa com um pequeno passo”, como já disse alguém…
      Contudo, deixo aqui uma resposta que dei a uma moça, muito inteligente e que frequenta um outro blog do qual participo, e que fez um sútil e perspicaz comentário nesse post:

      “Nobre Larissa, sempre acrescentando conteúdo aos nossos debates. Uma mulher de rara consciência teológica!
      Larissa, não sei já lhe falei, mas sou nascido e criado no evangelho. Meu pai, inclusive, é pastor.
      Contudo, ocorreu-me um pensamento interessante esses dias. Quando dizemos que devemos buscar a verdade na “palavra de Deus”, o que estamos dizendo? Estamos nos referindo ao aspecto objetivo da mesma, ou seja, a bíblia (logos) ou à palavra que é revelada constantemente (Rhema)? Digo isso, porque é fundamental compreendermos essa dicotomia. Acredito que o erro histórico no qual o cristianismo mergulhou foi exatamente o de se apegar excessivamente à palavra escrita, e se esquecer que a principal é a palavra viva e constante (Rhema). Essa sim é a que Deus nos revela diariamente e que, segundo venho descobrindo, está dentro de nós. A bíblia é um bom começo, mas não o fim da verdadeira espiritualidade.
      Já faz muitos anos que venho estudando as religiões “clássicas” orientais, mormente o budismo. Confesso que tenho uma profunda admiração pelos ensinamentos e doutrinas budistas. MAS CALMA, NÃO SOU BUDISTA. Sou cristão, mas faço aquilo que Paulo aconselhou certa vez: analiso tudo, e retenho o que for bom.
      Uma das coisas que sempre admirei no budismo é a ênfase que ele dá ao aspecto subjetivo da religião, o que também está presente no cristianismo, mas nós não percebemos com facilidade, pois nosso cristianismo é extremamente coletivizado: cultos, reuniões, doutrinas dogmáticas e impostas ao grupo, rituais etc.
      Dentro desse subjetivismo, tenho entendido que na verdade existe dentro de cada um de nós algo que nos une a Deus e ao próximo em extrema sintonia. Contudo, esse sentimento é constantemente obliterado por nossa vida cotidiana, que insiste em calar nosso espírito. Contudo, quando começamos a mergulhar em nossa subjetividade, nos desligando do mundo exterior, ainda que vez ou outra, deixando de nos preocupar com o que haveremos de comer, beber ou vestir, buscando em primeiro lugar o Reino de Deus, então somos presenteados com essa sintonia com Deus, por meio do Seu Espírito. O Espírito Santo nada mais é que a sintonia Divina que existe em tudo, mas que só é captada por aqueles que procuram se sintonizar com ela (Sei que parece meio budista mesmo, mas não é, creia).
      Quando começamos a valorizar nossa espiritualidade e entrar em contato com o “Todo”, logo percebemos que fazemos parte de algo bem maior.
      Dentro de nós, realmente não existe nada de bom, ao menos sob uma ótica egoísta do “eu” existencial. Contudo, se buscarmos nosso verdadeiro “eu”, aquele que é fruto da amorosa criação Divina, que nos sintoniza com nossa essência, aquilo que Paulo denomina de “homem interior”, aí sim descobriremos o prazer e alegria que só Deus pode nos proporcionar. Olhe para dentro de você e de alguma forma você também me verá, assim como eu a vejo.
      É isso que me faz sentir comunhão com Deus, com o universo, e com você.
      Abração minha amiga!”.

      Estamos juntos meu amigo, apredendo sempre! Tenho sentido sua falta lá na igreja. Não que eu também esteja frequentando muito, ALIÁS ESTOU É MUITO AUSENTE…, e nem que isso seja lá algo essencial. Mas não deixa de ser uma ocasião que ao menos podemos nos encontrar.
      Abração e conte sempre comigo!

      • Rômulo de Barros disse:

        Mestre, minha ausência se deve ao fato de estar acompanhando o Pr. Alberone na QND 52. Assisto aos cultos lá, ultimamente, mas nunca irei abandonar a boa gente da Sede que aprendi a amar.

        No meu pobre entendimento, autorrealizado não significa tornar o homem bom, ou acrescentar-lhe quaisquer qualidades. Concordo contigo que estamos desprovidos do bem. Nesse tom, o autorrealizado, na verdade, é aquele que reconhece suas fraquezas e limitações, mas desgruda-se das coisas efêmeras pela iniciação espiritual. Ele não faz nada pensando nos outros, pois sua sabedoria o induz a apreciar as coisas por elas mesmas, e não pelo que os vizinho pense a respeito.

        Portanto, penso que só na autorrealização é que o ser humano perde o medo de si e passa a desfrutar dos momentos solitários.

        Grande abraço!

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