Reinvenção…

Publicado: 18/08/2011 por Duarte Henrique em Devocionais, Reflexão
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Saudações cordiais meus amigos. Uma vez mais o destino me traz aqui, a fim de compartilharmos um pouco mais sobre nossa complexamente simples existência. Sei que o texto é um pouco longo, mas o assunto é delicado e ainda assim receio ter sido omisso.

Venho passando por uma fase de intensas compreensões em minha vida. Na verdade eu não diria de compreensão, mas tomada de consciência, pois assim que iniciei meus estudos filosóficos logo percebi que algumas coisas estavam erradas em nosso meio

Recentemente tive a grata satisfação de me aprofundar um pouco mais numa pequena obra de Freud, da qual já havia lido trechos e comentários: O Mal Estar Na Civilização. Está disponível na internet. Recomendo altamente a leitura. O livro é riquíssimo em conteúdo. Mas, resumindo de modo bastante grosseiro, a conclusão a que Freud chega é a de que, basicamente, o fator que provocaria o “mal estar” na civilização, ou cultura como preferem alguns, seria a tensão existente entre o instinto de vida, projetado basicamente pela libido e que visa sempre a aglutinação dos homens, e uma espécie de instinto de destruição ou pulsão de morte, que visa sempre a subsistência individual. Lembra um pouco O Discurso Sobre A Origem da Desigualdade de Rousseau em alguns aspectos, além do Leviatã de Hobbes, inclusive mencionado pelo autor.

Não tenho mais espaço para me aprofundar aqui sobre o livro em si, seria necessário um artigo só para isso. Outrossim, o que sempre me causou espécie em leituras como essa, e isso sempre fica claro quando resolvemos nos aprofundar um pouco mais em nossa existência, é o fato de que a padronização que nos é imposta pela cultura e civilização definitivamente não seja algo bom.

Os padrões impostos começam a não se adequar a medida que vamos nos descobrindo. Isso tem uma razão simples, penso eu: Cada um de nós é um ser individual. Portanto, nossos valores e padrões de bem estar e felicidade também devem ser individualmente vividos. A razão do porque muitas vezes não existe um conflito nesse nível é que a maioria das pessoas simplesmente prefere se amoldar aos padrões e tabus já existentes. Isso é sempre mais cômodo, mas é também uma espécie de suicídio existencial. É difícil nos libertarmos do superego coletivo, mas isso é algo imperioso se realmente quisermos viver nossa felicidade ao invés de um modelo de felicidade preestabelecido.

Quando realmente decidimos intensificar nossa existência e não mais aceitamos qualquer valor sem que ele tenha passado antes pelo crivo de nossa consciência, logo começamos a esbarrar numa série de valores, regras e tabus sociais. Passamos então a ser pessoas subversivas, rebeldes, “ovelha negra”, anarquistas e inimigos da ordem. Não sem razão muitos homens que buscaram autonomia de pensamento ao longo da existência humana foram relegados ao ostracismo. Filósofos, teólogos, cientistas, pensadores, enfim, uma gama de pessoas cujo único pecado foi perceber que nossa existência é única e, portanto, nossa felicidade também.

Não existem modelos de felicidade preestabelecidos! Cada um de nós deve descobrir quem realmente é, pois só assim estará apto a saber qual é sua felicidade.

Há muito tempo me cansei de ter que ficar me anulando, me hostilizando e me reprimindo por ter de me amoldar à padrões impostos sobre família, sexualidade, religião e sociedade. Um dos dias mais importantes de nossa vida é o dia em que finalmente enxergamos a nós mesmos como seres individuais, com uma história própria, independentemente do que pensa o grupo no qual estamos inseridos. É claro que devemos assumir a responsabilidade por isso, mas essa atitude tornará nossa vida digna de ser vivida. Isso é ser “responsável por si mesmo”, frase que muita gente gosta de dizer, sem ter idéia da profundida que ela implica. Assumir essa responsabilidade é o primeiro passo para a intensidade e delírio que devem nortear uma vida única, sua.

Lembrei-me então da famosa poesia de Cecília Meireles: Reinvenção. A referida poesia contém, em minha opinião, uma das frases mais profundas já elaboradas pelo pensamento humano: A vida só é possível reinventada. Chego a ter um orgasmo espiritual. Meus amigos, uma vida que não for reinventada não é viável, não é digna de ser vivida!

Reinventar a vida é fazer aquilo que Descartes fez certa vez, quando simplesmente questionou todos os valores possíveis em sua existência! Num dado momento chegou a duvidar de tudo e de todos, inclusive de si mesmo! Descobrir que não existem padrões talvez seja um dos poucos padrões existentes…

Existem regras absolutas? Sim: Deus; a natureza; o sol nasce e se põe; nascemos e morremos; somos seres transcendentais. Fora isso, todo o resto é convenção humana.

Sei que muitas pessoas, algumas aprisionadas em suas convicções, e outras até bem intencionadas, virão a mim com um longo discurso teológico e fundamentalista, alegando uma serie de coisas, baseados na bíblia ou em outro livro que se aproxime dela em profundidade espiritual. Defenderão a existência de sistemas imutáveis aos quais simplesmente devemos nos submeter. Contudo, e me perdoem a acidez, mas muitas pessoas se escondem atrás de sua “piedade” por terem medo de descobrir quem realmente são. A verdadeira religião jamais será uma prisão! Muitos estão acorrentados dentro das igrejas! Mas não quero falar de igrejas, pois esse discurso vale para nossa civilização como um todo, e não apenas para o fenômeno religioso, muito embora este último sirva constantemente como instrumento de manipulação ideológica por parte de homens mal intencionados.

Também consigo imaginar sociólogos, psicólogos e filósofos mantenedores do status quo me acusando de louco, anarquista é liberal. E daí? Aceito todos esses adjetivos com os braços abertos! Cada vez mais me convenço de que só os loucos vivem de verdade.

Não estou advogando aqui uma completa sublimação gratuita dos valores e tabus de nossa civilização e cultura. Alguns deles até devem ter sido erigidos com boas intenções, a fim de manter-se a “ordem” e evitar-se “a guerra de todos contra todos”. Contudo, quando começamos a buscar profundamente nossa própria identidade, entendemos que fatalmente colidiremos com muitos deles. Alguns até “sagrados”…

Amigos e irmãos, reflitamos: A vida é por demais efêmera para ficarmos nos prendendo a valores e práticas que apenas refletem uma padronização nauseante. Viva sua vida da forma mais intensa e profunda possível, ainda que isso lhe custe a simpatia e as “punições” do superego coletivo. Mais vale um único dia verdadeiramente meu, que mil dias vividos dentro daquilo que é o “normal”.

Nietzsche disse certa vez que “as convicções são cadeias”. Não poderia estar mais certo. Quantas pessoas deixaram e deixarão de viver o que foi preparado exclusivamente para elas porque não terão coragem de se libertar de suas frágeis convicções? Sem bem que isso não deixa de ser o destino delas.

Quanto a mim, já decidi que viverei cada vez mais aquilo que Deus reservou exclusivamente a mim, e a mais ninguém. Ainda que isso “escandalize” a muitos.

Muito ainda teria para ser dito, mas paro por aqui. Quem sabe num próximo artigo. Que Deus, em Cristo, nos ajude cada vez mais a viver aquilo que foi preparado com exclusividade para cada um de nós. Esse artigo tem profunda conexão com o anterior.

Longa vida à reinvenção da vida! Abraços de seu irmão, Duarte Henrique.

comentários
  1. josueflausino disse:

    ????
    Duarte, cita um desses valores ai para que eu entenda (ou não).

  2. Grande Josué,

    Creio que seria um pouco incoerente de minha parte se eu citasse algum valor ou tabu social aqui, uma vez que, como dito no texto, eles são naturalmente descobertos por nós a medida em que vamos nos afirmando. O risco que eu correria é o de padronizar meus valores…
    Contudo, para que a questão não fique tanto na campo da abstração, permita-me exemplificá-la, ainda que o caso concreto possa corromper um pouco o conceito e tese do artigo. Ei-lo:
    Algum tempo atrás alguém me contou uma história que via na televisão. Não sei se é verdadeira. A história é a seguinte: Dois irmãos, que se separaram por algum motivo na infância, na fase adulta se reencontraram e se casaram, sem saber que eram irmãos. Tiveram filhos normais, sem nenhum defeito genético. Eram felizes. Certo dia, alguém sugeriu que eram muito parecidos e isso era muito estranho. Resolveram então fazer o teste de DNA e descobriram que eram irmãos. O baque foi imediato e intenso. Resolveram então, precipitadamente a meu ver, que não mais se tocariam e também não mais se envolveriam com outras pessoas, além de que morariam na mesma casa.
    Bom, o que eu questiono é o seguinte: aonde está escrito que os dois não poderiam ser felizes juntos? Quem disse que não poderiam continuar suas vidas normalmente? Eles não se amavam? Ora, eles foram vítimas de um tabu social que acabou condicionando a felicidade deles! Quem dera pudessem eles entender que nossa felicidade quem faz somos nós. E daí se a sociedade abomina o casamento entre irmãos? No caso deles, aprouve ao destino colocá-los um ao lado do outro.
    A sociedade às vezes é muito hipócrita e ignorante, côa mosquitos e engole camelos…
    Eis aí um exemplo de um tabu que lamentavelmente acabou com a felicidade de um casal.
    Existem outros valores e tabus religiosos, sexuais e sociais que poderiam ser citados aqui como fatores de limitação e padronização deletérios, mas prefiro que os descubramos a medida que nos descobrimos… Como já dito, a vida consciente de cada um de nós vai revelando aquilo que faz ou não parte de nossa essência, ainda que a cultura e tradição imponham o contrário.

    Abração meu irmão!

    • Daniel Roriz disse:

      Grande mestre Duarte, sempre nos dando um choque de realidade. Devo confessar que tenho duas linhas de pensamento a esse respeito e que não consigo achar uma “teoria da ubiquidade” nesse aspecto. Bom o primeiro ponto reside na linha defendida por este post, que devemos buscar nossa própria felicidade, independente dos padrões sociais de felicidade ok, concordo! O segundo ponto na verdade é um questionamento, sobre como seria a sociedade se todos vivêssemos dessa forma, cada qual por uma busca desenfreada por sua própria felicidade?
      Penso que viveríamos em completa anarquia e em afronta direta a um dos grandes princípios do cristianismo, amar ao próximo. Veja, se eu decido viver o meu modo de ser feliz, livre de convicções (que penso serem de importância fundamental, sob pena de cairmos em um relativismo sem fim) dificilmente consideraria o próximo superior a mim (Fp 2.3), ou me preocuparia com o seu modo de ser feliz.

      Por fim, acredito que Cristo nos chamou para a liberdade, mas devemos concordar que é complexo viver a plena liberdade de cristo nos nossos padrões religiosos de hoje.

      Abraço irmão!

      • Duarte Henrique disse:

        Grande Daniel! É bom vê-lo por aqui meu irmão.

        Meu caro, eu poderia até elaborar um grande texto para dar meu posicionamento sobre os questionamentos que você fez. Mas serei breve. Tenho percebido que quanto mais tentamos justificar uma coisa, menos acreditamos nela. A verdade não precisa de justificativas.
        Para mim, esse receio que temos de nossa subjetividade é fruto da padronização que sofremos desde a mais tenra idade, e em todos os ambientes de nossa existência. Ora, eu me considero um anarquista bem resolvido. Não tenho a menor dúvida de que se não existissem instituições coercitivas (igreja, estado, polícia, direito etc.) a sociedade seria muito melhor. Mas aí você pode questionar: “Mas seria um caos, cada um faria o que quisesse egocentricamente etc”. Eu lhe pergunto: se o governo deixasse de existir, você sairia por aí roubando, estuprando ou violando outras pessoas por causa disso? Estou certo de que não. Quem viola a lei, violaria existindo lei ou não! É questão de natureza. Ouso dizer aqui, modéstia à parte, que se todos no mundo fossem como eu, o mundo seria um lugar infinitamente melhor do que é hoje! Sem contar que “uma busca desenfreada por felicidade” já é um sinal de decadência. Não sou relativista, mas com certeza boa parte do que chamamos de “verdade”, mesmo nós cristãos, não passa de pura convenção. Alcançar a verdade não é uma coisa tão simples assim. A não ser que nos prendamos à fórmulas vagas, tais como “Jesus disse que é o caminho e a verdade”, “Deus é a verdade”, “A bíblia é a verdade” etc. Mas ainda aqui o que existe é a fé, nada mais. Além do mais, o que esse tipo de expressão efetivamente quer dizer? A maioria de nós repete automaticamente, mas nem sabe ao certo o real sentido prático dessas afirmações. Aliás, as verdades religiosas estão entre as mais mutáveis da história da humanidade. Não precisa ir longe e nem ser muito profundo. Serei trivial e contemporâneo. Por exemplo, muitos pastores que já excluíram jovens por que eles jogavam bola, hoje estão no segundo casamento sem nenhuma objeção. Muito pelo contrário, continuam agarrados ao poder que o púlpito lhes outorga… Ora, falar em divórcio no meio evangélico até bem pouco tempo atrás era um grande absurdo, um pecado mortal, verdadeiro sacrilégio. Eu poderia até mesmo entrar no âmago de doutrinas mais profundas, que para nós hoje são sagradas, mas que são pura convenção, ainda que pouquíssimos saibam disso. Mas deixo isso pra lá.
        Acredito que uma vida vivida em toda sua intensidade subjetiva ainda seja muito mais digna de ser vivida do que a mera repetição de padrões e comportamentos, coisa que a maioria dos homens sempre fez. Tenho para mim que essência do cristianismo resida exatamente na subjetividade, naquela relação exclusiva que o homem trava como Deus. Eu & Deus, eis aí o sentido de tudo o que existe.
        Receio ter me estendido demasiadamente…

        Abração meu irmão!

  3. Eu não consegui terminar esse texto sem lembrar do mito da caverna, mas não me lembro o que levou o indivíduo que saiu da caverna a fazê-lo. Eu diria, mesmo correndo o risco de profanar o mito, a dizer que sair da caverna é um gesto individual e demostra o que o Duarte parafraseou, mas em termos mais simples. Viver na caverna, pílula azul, etc. Escolha sua metáfora favorita e liberte-se, se tiver coragem. Do lado de cá a realidade é bem intensa. Melhor ir, antes que o Smith apareça…

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