Considerações Extemporâneas Sobre o Amor…

Publicado: 24/09/2011 por Duarte Henrique em Devocionais, Reflexão
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Não se trata de uma visão original, mas certamente é minoritária, ao menos na prática. Dizem que filósofos não deveriam falar sobre o amor. São sinceros demais para isso…

Ainda essa semana Cris & eu discutíamos tendo novamente o amor como objeto de nossas considerações. O amor, esse ente do qual tanto falamos e sobre o qual tanto controvertemos. A questão básica, que primeiro coloquei a mim e posteriormente a ela, girava em torno da seguinte pergunta: É possível a existência de um amor totalmente livre e desembaraçado entre homem e mulher? Noutras palavras, é possível que um homem e uma mulher se amem sem que para isso seja preciso a existência de qualquer tipo de dever, obrigação, vínculo jurídico, tradição ou imposição cultural? Amar por amar?

A questão deve ser colocada no âmbito do relacionamento entre homem e mulher porque, muito embora o amor seja único em todos os sentidos (não existe a tal tricotomia clássica de eros, fileo e agape, pois o que existe nesses casos é o amor e mais alguma coisa), em algumas circunstâncias o amor é guiado plenamente pelo instinto, como é o caso do amor materno ou paterno, que só a duras penas consegue se tornar indiferente. Portanto, a questão fica limitada ao relacionamento afetivo entre homem e mulher.

Deixando de lado a questão da paixão, inicialmente o amor que atrai homem e mulher é um amor voluntário. Fruto apenas da vontade. Ao menos deveria.

Contudo, com o passar do tempo parece que o amor vai se tornando um dever, uma obrigação moral ou simplesmente uma tradição cultural. Amamos nosso parceiro porque devemos amar, ou então porque é isso que se espera de namorados, noivos e cônjuges. Aos poucos a espontaneidade inicial começa a dar lugar ao deveres…

Todavia, e boa parte vai concordar comigo, acredito que o único motivo legítimo que deve justificar uma pessoa ficar ao lado da outra é a vontade livre, nada mais. Não somos obrigados a estar ao lado de ninguém. Não é um compromisso assumido como namorado, noivo, companheiro ou mesmo cônjuge o fator que deve determinar se queremos ou não estar ao lado de alguém. A única razão, como já dito, deve ser a voluntariedade do amor que sinto. Do contrário, estaremos diante de um amor forçado, ainda que pautado num compromisso.

Em princípio, o que digo é bastante óbvio, afinal o amor realmente deve ser um fim em si mesmo em qualquer relacionamento. Ademais, deve ser um amor livre de quaisquer obrigações e deveres, fruto exclusivamente de uma vontade livre. Pois bem meu caro amigo, não se precipite em me dar seu aval. Vejamos agora algumas implicações da teoria do “amor livre”. Me limitarei a discorrer, brevemente, sobre apenas dois aspectos básicos e correlatos. Daí você decide se me dá seu aval ou não.

A primeira grande consequência de quem realmente ama com um amor livre é a total ausência de ciúmes. O ciúme é fruto de um amor adoecido. Quem ama com um amor livre não tem ciúme de qualquer ordem ou natureza. O ciúme, além de demonstrar uma profunda insegurança, é fruto de um amor obsessivo, egoísta e que se pauta numa obrigação, numa fixação em “amar”. A pessoa que ama com um amor livre sabe bem qual é a qualidade e a intensidade do que sente pelo outro, e é nisso que se garante. Sabe que o outro jamais trocaria seu amor sincero e verdadeiro por uma aventura qualquer. O ciúme, portanto, é fruto de um amor privado de liberdade. Zelo é bem diferente de ciúme.

A segunda grande consequência do amor livre, e aqui reside um verdadeiro rompimento com o paradigma atual, é que a pessoa que ama com esse tipo de amor está mais preocupada com o que a pessoa amada sente por ela, do que o sentimento dela por outras pessoas. Em nosso modelo atual, muitas vezes sequer nos importamos pelo que a pessoa que está ao nosso lado sente por nós. O importante é que ela não sinta nada por outras pessoas. Aqui reside o amor “tradição”, “vigiado”. Se realmente amássemos com um amor livre, saberíamos que a pessoa que está ao nosso lado, assim como nós, somente o faz por sua exclusiva vontade e, portanto, porque nos ama. Essa preocupação e vigilância sobre os sentimentos alheios apenas mostra o quanto o arquétipo predominante de amor é patológico, possessivo.

Existiriam outras observações a serem feitas, mas por enquanto limito-me a essas. Prossigo investigando as demais. Contudo, uma coisa já ficou muito clara para mim: o amor só existe na liberdade, e a liberdade é fruto da verdade. O amor de Deus parece ser um amor livre.

Abraços, e que Deus, em Cristo, seja sempre nosso guia.

DH

comentários
  1. Milena disse:

    Olha só que legal: depois de décadas sem visitar o blog de vocês, dou de cara com um texto do Duarte com o qual eu concordei! (não que isso seja muito dificil de acontecer) rs
    Adorei o texto. Sempre achei que a base do amor fosse a liberdade e a espontaneidade; cheguei a falar disso no meu blog uma vez…a partir do momento em que as coisas passam a ser feitas por obrigação, elas “perdem a graça”. A beleza do amor consiste justamente no voluntarismo, ou seja, no fato que cada detalhe da relação ocorre por vontade própria.

  2. O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso,não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal.
    1 Coríntios 13:4-5

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